A estética do sorriso, marcada nos últimos anos por dentes excessivamente brancos e padronizados, passa por uma inflexão no Brasil. A avaliação é do cirurgião-dentista Paulo Bottura, entrevistado no Podcast Diário do Rodrigo Lima, ao analisar as transformações técnicas e conceituais que vêm redesenhando o setor.
Com 25 anos de atuação, Bottura, que atende nomes conhecidos do público – entre eles artistas e influenciadores -, afirma que a odontologia estética abandona gradualmente o modelo artificial para adotar uma abordagem centrada na individualidade biológica do paciente. “Quanto mais imperceptível for o trabalho, melhor”, disse durante a entrevista.
A mudança reflete uma crítica crescente ao padrão que dominou redes sociais e clínicas ao longo da última década. O chamado “sorriso branco corretivo”, com alinhamento perfeito e tonalidade homogênea, passa a ser visto como exagerado e, em muitos casos, desproporcional ao rosto. Segundo o especialista, o desafio atual é respeitar a anatomia original e evitar resultados artificiais – prática que ele próprio afirma recusar em sua rotina clínica.
Naturalidade substitui padronização estética
De acordo com Bottura, houve um período recente em que a busca por dentes extremamente claros e volumosos gerou distorções estéticas. O fenômeno, impulsionado por tendências digitais, levou a resultados que, hoje, são questionados por profissionais da área.
“A gente precisa respeitar as proporções do rosto para não cair no exagero”, afirmou. A premissa, segundo ele, é que o sorriso não deve se destacar de forma artificial, mas sim integrar a expressão facial do paciente.
Essa nova lógica também impõe um componente ético mais rigoroso. O dentista relata que, em determinadas situações, opta por não realizar procedimentos solicitados por pacientes quando avalia que o resultado comprometerá a harmonia estética ou a saúde bucal. “O paciente que sai da clínica é um outdoor ambulante do meu trabalho”, disse.
Tecnologia digital redefine os procedimentos
A transição para uma odontologia mais precisa e conservadora é sustentada pela incorporação de tecnologia digital. Ferramentas como scanners intraorais e softwares de simulação substituíram métodos tradicionais de moldagem, permitindo planejamento detalhado e previsibilidade dos resultados.
Entre os recursos citados está o chamado “mockup”, uma simulação provisória do novo sorriso feita antes da intervenção definitiva. O procedimento possibilita ao paciente avaliar não apenas a estética, mas também a funcionalidade, como fala e adaptação.
As lentes de contato dental, frequentemente associadas ao universo das celebridades, também evoluíram. Segundo Bottura, a espessura pode chegar a apenas 0,5 milímetro, o que, em muitos casos, elimina a necessidade de desgaste do dente original.
A durabilidade varia conforme o material: enquanto as lentes de resina têm vida útil média de dois a três anos, as de porcelana podem ultrapassar uma década, mantendo estabilidade estética e funcional.
Brasil ganha protagonismo internacional
Durante a entrevista, Bottura também destacou o reconhecimento internacional da odontologia brasileira. Segundo ele, o país se consolidou como referência técnica no setor, atraindo interesse de profissionais estrangeiros e ampliando sua influência em congressos e formações.
O avanço é atribuído à combinação de formação especializada, domínio tecnológico e experiência clínica acumulada. Ainda assim, o dentista faz questão de relativizar o glamour associado ao atendimento de celebridades. “Se eu vivesse só de famosos, passaria fome. A odontologia é para todos”, afirmou.
Saúde bucal e hábitos cotidianos em alerta
Além da estética, a entrevista trouxe alertas sobre práticas que afetam diretamente a saúde bucal. Entre os pontos destacados está o bruxismo, condição associada ao estresse e que, segundo o especialista, atinge grande parcela da população.
O desgaste dos dentes, especialmente dos caninos, é um dos principais sinais clínicos do problema. A condição pode levar a fraturas, sensibilidade e comprometimento funcional se não tratada adequadamente.
Outro hábito criticado é o consumo de água com limão em jejum, frequentemente associado a benefícios metabólicos. Bottura afirma que a prática pode causar danos ao esmalte dentário devido à acidez elevada, especialmente em um momento em que o pH da boca já está alterado.
Ele também reforça orientações básicas, como o uso regular do fio dental – responsável por limpar a maior parte das superfícies dentárias – e a necessidade de evitar escovação excessivamente agressiva, que pode provocar desgaste do esmalte e retração gengival.
“Odontologia raiz” como contraponto ao mercado estético
Em meio à expansão da harmonização facial e de procedimentos voltados exclusivamente à estética, Bottura defende o que chama de “odontologia raiz” – abordagem centrada na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças bucais.
Para ele, a valorização da saúde deve preceder qualquer intervenção estética. “Nunca podemos colocar o lucro à frente do que realmente importa, que é a saúde do paciente”, afirmou.
A tendência, segundo o especialista, aponta para um equilíbrio entre tecnologia, estética e função, com foco em resultados duradouros e biologicamente compatíveis.
Podcast amplia debate sobre estética e saúde
A participação de Paulo Bottura no Podcast Diário do Rodrigo Lima reforça o papel do programa como espaço de discussão técnica e informativa sobre temas que impactam diretamente o cotidiano da população.
Ao abordar desde tendências estéticas até cuidados básicos de saúde bucal, a entrevista evidencia uma mudança de comportamento que ultrapassa o consultório e alcança o debate público: o sorriso ideal deixa de ser padrão e passa a ser, cada vez mais, individual.
