Em passagem por São José do Rio Preto, Renan Santos (Missão) adotou um discurso de confronto para apresentar sua candidatura à Presidência como alternativa tanto ao governo Lula quanto ao bolsonarismo. Em entrevista, ele colocou a segurança pública no centro de sua plataforma, prometeu uma ofensiva federal contra organizações criminosas e afirmou que pretende combinar redução de gastos, queda dos juros e uma nova reforma trabalhista para estimular a economia. Ele participou de almoço com empresários da cidade oferecido pelo Lide Noroeste Paulista.
Um dos momentos mais duros ocorreu ao tratar do combate à criminalidade. Renan disse que um eventual governo seu buscaria modificar a legislação penal, processual penal e de execução penal para dificultar a soltura e a progressão de pena de condenados.
“Ou você vai preso ou você vai morto”, afirmou ao falar de criminosos violentos. Na sequência, disse que, em seu governo, “o bandido vai ser preso, ele vai ficar preso” e que policiais que agirem no estrito cumprimento do dever teriam assistência jurídica do Estado.
Renan promete ‘destruir’ PCC e outras facções
O pré-candidato afirmou que caberia ao governo federal coordenar uma estratégia nacional contra o crime organizado, articulada com os Estados. Em São Paulo, citou nominalmente o PCC; em outras regiões, mencionou o Comando Vermelho.
“Elas precisam ser destruídas, não existe negociação”, afirmou sobre as facções. Renan estabeleceu como objetivo acabar com essas organizações até o final de um eventual primeiro mandato.
Questionado sobre pena de morte, disse que a Constituição impede sua adoção nas circunstâncias atuais e que uma mudança dessa magnitude exigiria uma discussão constitucional mais profunda.
Ao expor sua posição pessoal, porém, foi além. “O meu coração tá na linha de um cara que matou 3, 4 pessoas, uma pessoa que estuprou uma criança, essa pessoa não tem o direito de estar viva”, declarou.
Críticas à polarização atingem Lula e bolsonarismo
Renan também tentou se colocar fora da divisão entre PT e bolsonarismo. Questionado sobre como pretende romper a polarização, respondeu: “Falando a verdade e não sendo ladrão”.
O pré-candidato afirmou que personagens ligados à esquerda e à direita aparecem nos mesmos escândalos e acusou o sistema político de alimentar uma disputa artificial entre os eleitores.
“Tá na hora da gente sair dessa farsa”, disse. “O eleitor tem que parar de ser tratado como palhaço.”
O discurso busca abrir uma avenida eleitoral particularmente difícil: atrair eleitores conservadores insatisfeitos com o bolsonarismo sem aproximar a candidatura do campo governista.
Rio Preto entra na estratégia pelo agro e pela indústria
Renan classificou o noroeste paulista como uma região estratégica por reunir agronegócio e atividade industrial. Disse que sua própria origem profissional está ligada ao setor de manufatura e defendeu uma agenda de competitividade baseada em redução de impostos, simplificação trabalhista e diminuição da burocracia.
Segundo ele, o Brasil atravessa um processo “muito agudo de desindustrialização”.
“Recuperar a indústria brasileira significa atender uma região que paga a conta basicamente de todos os programas sociais do Brasil”, afirmou.
Para os primeiros meses de governo, o pré-candidato indicou três eixos com impacto direto sobre o interior paulista: segurança pública, ajuste fiscal e reforma trabalhista.
Renan afirmou que pretende cortar gastos para criar condições para a redução dos juros. “Juros só vai baixar se eu cortar gasto”, disse. Também prometeu, no primeiro ano, uma reforma destinada, segundo ele, a reduzir burocracia nas relações de trabalho e aumentar a segurança jurídica das contratações.
‘Transformação do Brasil em uma Venezuela’
A declaração politicamente mais explosiva da entrevista veio quando Renan foi questionado sobre o que representaria mais um mandato de Lula.
“Eu acho que é a transformação do Brasil em uma Venezuela. De uma maneira muito clara”, respondeu.
Ele argumentou que uma nova vitória do petista ampliaria a influência do governo sobre instituições brasileiras e traçou um paralelo com o processo político venezuelano. Também acusou Lula de aproximar excessivamente o Brasil da China.
“É muito perigoso o que o Brasil está passando”, afirmou.
As comparações e previsões são avaliações políticas de Renan, e não fatos estabelecidos na entrevista.
Bolsonaro: ‘Houve crimes’
Renan procurou marcar distância também em relação a Jair Bolsonaro ao ser questionado sobre os processos relacionados aos atos de 8 de Janeiro.
Ele rejeitou a ideia de que a direita precise chegar ao primeiro turno com um único candidato. “Eu acho maravilhoso que tenham muitas candidaturas”, afirmou, argumentando que o sistema eleitoral brasileiro permite que a concentração de forças ocorra apenas no segundo turno.
Sobre Bolsonaro, adotou uma posição intermediária: disse enxergar componente político no julgamento, mas rejeitou a tese de que não tenham ocorrido crimes.
“Eu acho que o julgamento do Bolsonaro teve viés político em muitos termos, sim”, afirmou. Logo depois, acrescentou: “Mas que houve crimes, houve.”
Para Renan, uma revisão da dosimetria das penas seria uma saída política. “Ou a gente defende lei e ordem, ou a gente não defende”, afirmou.
STF também entra na mira
A relação com o Supremo Tribunal Federal foi outro ponto de tensão.
Renan afirmou que, caso eleito, pretende manter uma relação “calma” e “republicana” com a corte, mas acusou o STF de avançar sobre competências de outros Poderes.
“A função do Supremo é ser guardião da Constituição. Não é legislar sobre vários assuntos como ele vem fazendo”, declarou.
O pré-candidato disse que pretende respeitar o sistema de freios e contrapesos, mas cobraria do tribunal respeito às atribuições do Executivo.
“Cada um dentro da sua caixinha. Quem legisla é o Legislativo, quem executa é o Executivo e quem julga é o Judiciário”, afirmou.
Violência contra a mulher
Renan também abordou a violência contra mulheres e disse que endurecer penas, isoladamente, não resolveria o problema.
Ele defendeu ampliar a capacidade investigativa do Estado e criar condições para que vítimas denunciem agressões com maior segurança, sobretudo em regiões dominadas por organizações criminosas.
“Não fica só no aumento de pena”, afirmou. Para ele, é necessário combinar punição, investigação, mecanismos de denúncia e conscientização sobre violência nos relacionamentos.
A passagem por Rio Preto mostra a estratégia que Renan pretende levar à campanha: discurso econômico liberal, endurecimento radical na segurança pública e ataques simultâneos ao lulismo, ao bolsonarismo e à atuação do Supremo.
Ao rejeitar a lógica de uma candidatura única contra Lula, ele aposta que o primeiro turno deve funcionar como uma espécie de eliminatória dentro da própria oposição. A questão para sua candidatura será transformar a contundência do discurso em espaço eleitoral num cenário ainda dominado por forças políticas muito maiores.
