Em entrevista ao Podcast Diário do Rodrigo Lima, o radialista e diretor da 40 Graus FM (102.5 MHz), Cacá Rossete, atribuiu a longevidade do rádio a um atributo que atravessa modas e tecnologias: a capacidade de acompanhar o ouvinte “em tempo real”, 24 horas por dia. “O rádio é companhia”, afirmou, ao lembrar que previsões de “fim do rádio” reaparecem desde a chegada da TV até a internet – e, ainda assim, a mídia permanece.
A conversa foi ao ar em fevereiro, mês em que se comemora o Dia Mundial do Rádio (13 de fevereiro). No episódio, Rossete resgatou o início da própria trajetória, “beirando os 44 anos” de atuação, e descreveu como o gosto pela locução apareceu antes mesmo da profissão: adolescente, enquanto aprendia um ofício manual, passava o dia com um aparelho ligado e imitava comunicadores. “Eu fazia locução em cima de músicas”, contou.
A memória afetiva, no entanto, não virou nostalgia. Ao falar sobre o presente, o diretor apontou que, mesmo com a presença de câmeras e transmissões em vídeo, a lógica do rádio segue baseada em uma relação direta com quem escuta – e em uma comunicação que não dependa de “tipos” ou fórmulas. “Não queira criar um personagem… seja natural, faça com o coração”, disse, em um trecho em que defende que autenticidade é percebida pelo público com a mesma rapidez com que ele muda de estação.
Rossete também associou o vínculo com a audiência a um compromisso com conteúdo que “agregue”, seja na música, seja na informação. Ao lembrar de suas referências, citou o locutor Milton Ross, de uma rádio AM do Rio de Janeiro, como exemplo de inteligência no microfone e de cuidado com a forma de apresentar – inclusive ao observar o que, na própria escuta, soava “errado” em outros comunicadores.
A entrevista avançou para o impacto das redes sociais e dos novos formatos – como podcasts e lives. Na avaliação do diretor, a facilidade técnica de “entrar ao vivo para o mundo todo” aumentou a responsabilidade de quem fala e vende produtos ou ideias. “Preocupe-se com o que você está levando nesse online… faça com credibilidade”, afirmou, acrescentando que a busca por audiência, sem conteúdo consistente, costuma ser curta.
No relato sobre bastidores, ele descreveu a rotina da 40 Graus FM como “uma delícia e uma loucura”, marcada por planejamento que, diariamente, é atravessado pelo improviso típico do meio. “Tudo é planejado, mas todos os dias tudo sai fora do planejado, porque o rádio é muito instantâneo”, disse.
A evolução tecnológica apareceu como ponto de virada – e também como anedota. Rossete lembrou do tempo em que uma chamada de 30 ou 40 segundos exigia uma tarde inteira de gravação, devido às limitações do equipamento. Ao narrar a chegada de um dos primeiros computadores ao ambiente de produção, afirmou que a equipe tentou substituir gravadores analógicos por um sistema ainda imaturo, com resultado ruim. “A gravação ficou uma porcaria”, disse. Curioso e com conhecimento de eletrônica, ele decidiu desmontar o aparelho para entender o funcionamento. “O computador quebrou, nunca mais ligou”, contou, rindo da própria “loucura”.
A conversa também tocou no tema das rádios piratas. Segundo Rossete, parte das operações ilegais ocorre por desconhecimento, mas o risco é alto. Ele afirmou que transmissões irregulares configuram “crime federal” e citou a necessidade de autorização e regras técnicas para evitar interferências entre frequências. No caso de rádios web, disse, o cuidado passa por direitos autorais: “Você tem que ter autorização… senão você faz uma rádio web pirata”.
Ao ser provocado a escolher entre audiência e emoção, o diretor evitou a dicotomia. “Eu prefiro os dois. A audiência tem que ter, mas eu prefiro a emoção. Porque sem a emoção você não chega na audiência”, afirmou — síntese de uma entrevista em que o rádio aparece menos como plataforma e mais como relação: um serviço diário de presença, tom e responsabilidade.
