PODCAST – Cirurgião de face alerta para riscos da “harmonização milagrosa” e defende resultados naturais em rinoplastia

Rodrigo Lima

O otorrinolaringologista e cirurgião de face Cassiano Moreti foi o convidado do Podcast Diário do Rodrigo Lima e falou sobre a crescente procura por cirurgias estéticas, os riscos de procedimentos feitos por não médicos e a importância de buscar resultados naturais, que respeitem a harmonia do rosto e a função do nariz.

Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Moreti veio para São José do Rio Preto para a residência em otorrinolaringologia em um dos serviços mais tradicionais do País, impulsionado pelo nome do médico José Vitor Maniglia, referência na área. “Foram anos de muito aprendizado. Depois trabalhei com a equipe e hoje atuo em clínica privada na região do Georgina”, contou.

Nariz no centro da face – e das queixas

Especialista em cirurgia plástica da face, Moreti explica que o nariz costuma ser o principal foco de intervenção entre os pacientes. Dentro da otorrinolaringologia, ele atua com um conjunto de procedimentos que vai muito além da rinoplastia estética: correção de desvio de septo, cirurgias para sinusite crônica e outras alterações funcionais que impactam a respiração.

Além da rinoplastia, ele realiza lifting facial, blefaroplastia (pálpebras), suspensão de supercílio, frontoplastia (redução de testa), cirurgias de pescoço e otoplastia (orelha de abano). Em muitos casos, os procedimentos podem ser combinados para melhorar o contorno facial e o perfil em fotos e vídeos, uma demanda que cresceu com as redes sociais.

A rinoplastia, porém, continua no topo da lista. “O nariz é o grande carro-chefe quando o otorrino se volta para a plástica facial”, explica. Segundo ele, o objetivo não é buscar um modelo idealizado, mas um formato que faça sentido para cada pessoa. “Não existe um nariz perfeito em geral; existe o nariz ideal para aquela face.”

Quando operar e por que nem todo nariz pode “copiar” famoso

Moreti relata que é frequente receber pacientes, especialmente jovens, que chegam ao consultório com fotos de artistas e influenciadores pedindo “o nariz de fulana”. Ele reconhece que as referências ajudam a entender o gosto de cada pessoa, mas faz questão de ajustar expectativas.

“A cirurgia é individualizada. O nariz que fica bom em uma celebridade pode não combinar com a estrutura facial de outra pessoa”, afirma. Por isso, ele diz que sempre discute com calma o que é viável do ponto de vista técnico e estético.

A idade também é um critério importante. A rinoplastia é indicada quando o crescimento ósseo e facial está praticamente concluído. Em geral, isso ocorre por volta dos 14 a 15 anos para meninas e um pouco mais tarde para meninos. Exames de imagem ajudam a definir o momento certo.

Função e estética caminham juntas

O cirurgião frisa que o nariz não pode ser tratado apenas como um elemento estético. “Respirar bem, dormir bem, ter um fluxo de ar adequado é essencial para a saúde. A parte funcional e a estética precisam andar juntas”, diz.

No pós-operatório, ele alerta que o paciente precisa ter paciência. Edema (inchaço) interno e externo é esperado e pode demorar semanas ou meses para regredir totalmente. Em casos com desvios severos de septo, a melhora respiratória pode ser sentida mais cedo; já quem não tinha alteração funcional e operou apenas por estética tende a estranhar mais a fase inicial da recuperação.

Reoperações e correções, segundo ele, são exceções. Complicações como infecção ou cicatrização problemática ocorrem em minoria dos casos e, quando tratadas adequadamente, podem ser corrigidas com novos ajustes cirúrgicos.

Riscos da “harmonização” feita por não médicos

Um dos pontos em que Moreti é mais enfático é o perigo de intervenções faciais com profissionais sem formação médica ou sem treinamento específico em cirurgia de face. Ele cita casos graves de pacientes que chegaram ao consultório após terem passado por procedimentos de “rinomodelação definitiva” ou preenchimentos com materiais inadequados, como o PMMA (polimetilmetacrilato), um tipo de acrílico.

Em um exemplo que o marcou, uma paciente de Manaus havia passado por três rinoplastias e teve PMMA injetado na região nasal. O produto “escorreu” para a área abaixo do olho. “Foi preciso acessar toda a região da órbita para remover o material, extremamente aderido às estruturas. Era um caso complexo, mas conseguimos recuperar a forma do nariz e diminuir a inflamação crônica que ela tinha”, relata.

Moreti lembra que o nariz tem vasos muito finos e vascularização delicada. Injeções mal indicadas ou mal executadas podem causar necrose de pele e sequelas permanentes. “Promoção em cirurgia estética é sinal de alerta. Não é um produto de prateleira, é intervenção em estrutura nobre do rosto”, afirma.

Harmonização x cirurgia: nem sempre o preenchimento é o melhor caminho

O médico também diferencia cirurgias estruturais de procedimentos de harmonização com ácido hialurônico. Ele não é contra o preenchimento nasal, mas considera que as indicações são restritas.

“O ácido hialurônico sempre aumenta volume. Ele pode ser útil em narizes pequenos, que precisam de mais projeção para harmonizar com a face. Agora, usar preenchimento em um nariz que já incomoda por ser grande costuma piorar o problema”, explica.

Em muitos casos, pacientes o procuram insatisfeitos depois de harmonizações que deixaram o nariz maior e desproporcional. Nessas situações, ele lança mão de hialuronidase, enzima que dissolve o preenchimento, e depois discute a possibilidade de rinoplastia.

Escolha do médico: formação, trajetória e transparência

Questionado sobre como o paciente deve escolher o profissional, Moreti recomenda fugir de decisões baseadas apenas em preço ou redes sociais. Ele sugere verificar formação, residência médica, especialização, locais onde o cirurgião treinou e como conduz o pré e o pós-operatório.

“A pessoa precisa estudar o médico: onde se formou, onde aprendeu a técnica, qual o estilo de resultado que oferece. É uma avaliação global, não só de antes e depois de internet”, afirma.

Ele diz que mantém contato próximo com os pacientes, inclusive compartilhando seu celular pessoal para acompanhamento após a cirurgia. “Essa proximidade dá segurança, permite intervir rápido em qualquer problema e contribui para um pós-operatório mais tranquilo.”

Técnica estruturada e rinoplastia ultrassônica

Na parte técnica, Moreti destaca a evolução da rinoplastia nos últimos anos. De cirurgias baseadas em ressecção de cartilagens em excesso, a especialidade caminhou para técnicas estruturadas, em que se remove o que é necessário, mas se acrescentam enxertos para manter o nariz estável e funcional a longo prazo.

“Hoje pensamos em reforçar o nariz. Se você só tira e não estrutura, a cicatrização pode gerar deformidades estéticas e funcionais com o tempo”, afirma.

Ele também utiliza a chamada rinoplastia ultrassônica, em que o osso nasal é trabalhado com aparelho de ultrassom, em vez de martelo e cinzel. A técnica promete fraturas ósseas mais controladas, menos roxos e menor inchaço, o que encurta a recuperação.

IA e planejamento cirúrgico

Moreti recorre à tecnologia, incluindo softwares que simulam resultados e usam inteligência artificial. Fotos reais do paciente são projetadas com as alterações pretendidas, o que ajuda tanto na comunicação quanto no planejamento da operação.

“O paciente consegue visualizar a proposta e, ao mesmo tempo, nós definimos medidas, ângulos e projeções. Isso vira um mapa para a cirurgia”, diz. Ele ressalta, porém, que se trata de uma simulação, e não de promessa milimétrica de resultado.

Naturalidade como marca

Ao ser questionado sobre seu estilo, o cirurgião é categórico: prefere resultados discretos. “Eu gosto de naturalidade com beleza. Quando o nariz chama mais atenção do que o conjunto do rosto, algo se perdeu na harmonia”, afirma.

Segundo ele, isso vale também para blefaroplastias, frontoplastias e otoplastias. “Não é para sumir a orelha na foto, nem mudar o rosto da pessoa. É para amenizar o que incomoda, sem descaracterizar.”

Moreti conta que um dos momentos mais marcantes do trabalho é a retirada do primeiro curativo. “A reação do paciente, muitas vezes com choro de emoção, é a maior recompensa. Ver alguém se reconhecer de forma mais segura no espelho não tem preço.”

Outras cirurgias de face e busca por rejuvenescimento

Além do nariz, o médico relata aumento na procura por cirurgias de pálpebras, especialmente a partir dos 40 anos. Em muitos casos, associa blefaroplastia à elevação de supercílios, para evitar retiradas excessivas de pele e preservar a expressão natural.

O objetivo, reforça, não é “transformar” ninguém, mas suavizar sinais de cansaço e envelhecimento. “Homens e mulheres buscam parecer melhor, não outra pessoa. Quando o resultado respeita isso, a satisfação tende a ser maior e mais duradoura.”

Na avaliação de Moreti, o avanço de técnicas e tecnologias não substitui o papel central do cirurgião. “Face ainda é uma cirurgia muito artística, de olhar e de sensibilidade. A ferramenta ajuda, mas a decisão final é humana.”

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