
A inteligência artificial deixou de ocupar apenas o campo da inovação tecnológica para assumir um papel cada vez mais relevante na estratégia das empresas. Integrada aos sistemas corporativos e às bases de dados das organizações, a IA começa a funcionar como uma camada adicional de inteligência sobre as operações, auxiliando na análise de informações, no aperfeiçoamento de processos e na tomada de decisões.
Para Marco Aurélio Beltrame, diretor executivo da TOTVS Oeste, porém, a adoção da tecnologia não deve ocorrer apenas porque a inteligência artificial ganhou espaço no mercado. Em artigo sobre o tema publicado no Diário da Região, o executivo afirma que empresas precisam identificar primeiro quais problemas pretendem solucionar e onde a tecnologia pode produzir resultados concretos e mensuráveis.
A avaliação é que a implementação da IA deve estar diretamente relacionada aos objetivos do negócio. Isso significa que a tecnologia, isoladamente, não representa garantia de aumento de produtividade ou eficiência.
Um dos principais pontos para que essa transformação funcione é a qualidade dos dados disponíveis.
Sistemas de inteligência artificial dependem de informações confiáveis, organizadas e estruturadas para produzir análises relevantes. Dessa forma, a transformação provocada pela IA também pressiona as empresas a rever a maneira como coletam, armazenam, integram e utilizam seus dados.
Na prática, uma organização que possui grande quantidade de informações, mas mantém bases fragmentadas, desatualizadas ou pouco confiáveis pode ter dificuldade para extrair valor da inteligência artificial.
Papel humano permanece central
A expansão da tecnologia também não significa, segundo Beltrame, que profissionais deixarão de ser necessários.
O movimento tende a aumentar a importância de trabalhadores capazes de interpretar informações, avaliar respostas produzidas pelos sistemas, compreender o contexto em que os dados estão inseridos e tomar decisões responsáveis.
Nesse cenário, a qualificação profissional passa a ocupar posição estratégica.
Quanto maior for a participação da inteligência artificial nos processos decisórios de uma empresa, maior tende a ser a necessidade de estabelecer mecanismos de supervisão e critérios para avaliar a qualidade dos resultados produzidos.
A questão envolve não apenas domínio tecnológico, mas conhecimento do próprio negócio. Uma resposta gerada por um sistema pode ser tecnicamente consistente e, ainda assim, não ser adequada à realidade específica de uma organização.
Eficiência e competitividade
Para as empresas brasileiras, a inteligência artificial abre possibilidades de ganhos de produtividade e eficiência, além da automatização de atividades repetitivas e da utilização mais estratégica das informações disponíveis.
O potencial, entretanto, varia conforme o estágio tecnológico, a estrutura de dados, os processos internos e os objetivos de cada companhia.
Por isso, não existe uma única estratégia de adoção capaz de atender igualmente organizações de diferentes setores e portes.
A tendência é que cada empresa tenha de identificar os pontos de sua operação nos quais a IA pode efetivamente produzir valor, em vez de incorporar ferramentas sem um problema claramente definido.
Essa mudança também altera a relação entre tecnologia e gestão. Se, anteriormente, determinadas ferramentas eram vistas principalmente como suporte operacional, sistemas baseados em inteligência artificial passam a participar de atividades relacionadas à análise, previsão e apoio à decisão.
Pergunta muda com avanço da tecnologia
O avanço acelerado da IA também modifica o debate dentro das empresas.
A discussão deixa gradualmente de estar concentrada apenas nas capacidades técnicas dos sistemas – ou seja, “o que a inteligência artificial consegue fazer?” – e passa para uma questão ligada à aplicação prática: “o que podemos fazer melhor com ela?”
A diferença entre as duas perguntas é relevante.
A primeira coloca a tecnologia no centro da discussão. A segunda obriga a empresa a avaliar seus próprios processos, problemas e objetivos antes de decidir onde investir.
Na avaliação apresentada por Beltrame, a resposta a essa questão poderá influenciar diretamente a competitividade das organizações nos próximos anos.
Mais do que uma corrida pela adoção de uma nova tecnologia, a inteligência artificial impõe às empresas um processo de reorganização baseado em três pilares: estratégia, qualidade dos dados e capacidade humana de interpretar e decidir.
O diferencial competitivo, portanto, poderá não estar simplesmente em utilizar inteligência artificial, mas na capacidade de transformar a tecnologia em resultados concretos para o negócio.
