VEJA VÍDEO – Gaeco expõe rede criminosa que adulterava gasolina e lavava dinheiro em fundos

Rodrigo Lima

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) deflagrou nesta semana uma das maiores operações contra a adulteração e comercialização ilegal de combustíveis já realizadas no país. Batizada de Operação Carbono Oculto, a ofensiva mobilizou cerca de 1.400 agentes de segurança em vários estados, incluindo a região de São José do Rio Preto, onde foram cumpridos 17 mandados de busca em cidades como Catanduva, Ariranha, Marapoama, Rio Preto e Barretos.

Segundo o promotor de Justiça Tiago Dutra Fonseca, que atua no núcleo regional do Gaeco, a investigação revelou uma rede criminosa que se infiltrou em um dos setores mais estratégicos da economia, envolvendo diretamente a participação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). O esquema consistia na importação irregular de metanol pelo porto de Paranaguá (PR). Em vez de seguir para as indústrias químicas, como declarado em notas fiscais, a substância altamente inflamável era desviada para postos de combustíveis ligados à organização, que adulteravam a gasolina em níveis muito acima do permitido.

A fraude ia além da diluição. Consumidores eram enganados no próprio abastecimento, pagando, por exemplo, por 50 litros quando recebiam apenas 40. O impacto econômico foi classificado como “brutal” pelo promotor, que estimou que quase 30% do mercado de combustíveis em São Paulo tenha sido comprometido pelo esquema. O lucro, calculado em bilhões de reais, era reinvestido na aquisição de postos, usinas e até em fundos de investimento, mecanismo usado para lavar dinheiro e dificultar a identificação dos verdadeiros beneficiários.

A participação do crime organizado não se limitava a práticas de fraude fiscal. De acordo com o Gaeco, houve relatos de métodos mafiosos, como coação de proprietários de terras e ameaças a empresários que venderam postos e não receberam o pagamento. Os investigadores também identificaram conexões diretas com outros mercados ilícitos, como tráfico de drogas, de armas e até financiamento de atividades ligadas ao terrorismo.

O delegado da Delegacia Tributária de Rio Preto, Anselmo Antônio de Souza, destacou que o impacto não é apenas concorrencial, mas fiscal. A adulteração e sonegação retiram bilhões dos cofres públicos, comprometendo serviços básicos, desde a compra de insulina até a manutenção de rodovias. Segundo ele, a Fazenda Estadual já apreendeu computadores e documentos de empresas ligadas ao esquema e poderá cassar inscrições estaduais de estabelecimentos comprovadamente envolvidos.

A operação também determinou o bloqueio de patrimônio, incluindo mais de mil caminhões e diversos imóveis. O objetivo, segundo as autoridades, é garantir que o Estado recupere parte dos valores desviados e que o prejuízo não fique restrito ao papel de autos de infração sem execução prática.

As investigações, iniciadas ainda em 2020, na pandemia, tiveram apoio de órgãos federais e estaduais. A expectativa do Gaeco é que os desdobramentos revelem novos nomes e ampliem a responsabilização civil e criminal. “O crime estava literalmente sendo colocado na bomba de combustível e no carro do cidadão”, afirmou Dutra.

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