
O prefeito de São José do Rio Preto, Coronel Fábio Candido (PL), transformou o próprio CPF em símbolo de sua narrativa de integridade à frente da Prefeitura. Em cerimônia no auditório do 9º andar, durante a posse do novo secretário municipal de Administração, Frederico Duarte, e do novo procurador-geral do Município, Luiz Roberto Thiesi, o prefeito fez um pedido explícito aos dois auxiliares: “cuidem do meu CPF”.
Na fala, diante de representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, empresários, servidores, vereadores e secretários, Fábio Cândido construiu a imagem de um gestor que se diz “pobre”, com “poucos bens”, mas responsável por uma máquina que movimenta quase R$ 4 bilhões e assina milhares de contratos.
“Sou um prefeito pobre e tenho muito poucos bens. Conquistei pouca coisa na minha vida. Então, pelo amor de Deus, cuidem da única casa financiada em 30 anos, de um sítiozinho, de uma chácara que comprei este ano. Tenho muita prestação para pagar ainda”, discursou, em tom de informalidade calculada, enquanto reforçava a dimensão do risco jurídico embutido no comando da Prefeitura.
Blindagem jurídica e máquina de R$ 4 bilhões
Ao exaltar a qualificação técnica do novo secretário de Administração e do novo procurador-geral, o prefeito deixou claro que associa a gestão ao controle jurídico permanente.
Segundo ele, “quase tudo o que passa pela administração municipal exige conhecimento jurídico”, o que justificaria colocar “juristas à frente da máquina”. Na leitura do prefeito, a combinação de confiança pessoal e currículo robusto é o eixo que sustenta a promessa de cuidar não apenas do CPF do gestor, mas da legalidade de um governo que afirma perseguir metas de transparência e responsabilidade fiscal.
Coronel Fábio citou como exemplo o procurador agora empossado, tratado como um dos melhores defensores municipais junto ao Tribunal de Contas. E vinculou o trabalho técnico da Procuradoria ao discurso de que Rio Preto já é, ou estaria em vias de se consolidar, como uma “joia do Brasil” em governança pública.
Ele mencionou, ainda, a ambição de elevar o município, em termos de transparência, dos atuais indicadores para patamares de “selo ouro” e, depois, “diamante”, fixando a meta como compromisso de governo e não apenas promessa de marketing.
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De déficit de R$ 300 milhões a caixa “zerado”
O discurso sobre o CPF veio embalado por outro dado usado como trunfo político: o anúncio de que o município teria zerado o déficit orçamentário herdado no início da gestão.
Em entrevista posterior à posse, ainda no nono andar do Paço Municipal, o prefeito lembrou que começou o ano com um rombo próximo de R$ 300 milhões nas contas públicas.
Segundo ele, o ajuste envolveu três movimentos principais:
aumento do controle sobre o gasto público;
revisão e redução de contratos considerados “supérfluos”;
priorização de investimentos em áreas críticas – com destaque para a saúde, em meio à explosão de casos de dengue.
Coronel Fábio afirmou que cerca de R$ 28 milhões foram direcionados para o enfrentamento da dengue, ao mesmo tempo em que o governo cortava despesas para recompor o equilíbrio orçamentário. O prefeito prometeu apresentar “em breve” um balanço detalhado das ações e resultados.
Dengue, filas e o discurso da eficiência na saúde
O prefeito usou a saúde como vitrine da narrativa de eficiência. Ele lembrou que assumiu a Prefeitura em 1º de janeiro sob a marca do maior número absoluto de casos de dengue do Brasil, com 18 mortes apenas naquele mês.
No recorte que apresentou, em novembro do ano passado havia cerca de 4,3 mil notificações de casos de dengue no município. No mês passado, segundo o prefeito, os números não chegaram a mil e, em dezembro, estariam abaixo de 200 – movimento que ele atribui à reorganização da rede e a um enfrentamento mais ativo da doença.
A aposta política é vincular essa queda à ideia de gestão eficiente e transparente. Como símbolo desse discurso,Coronel Fábio citou o lançamento do aplicativo “Doutor Saúde Rio Preto”, que permitiria ao cidadão acompanhar indicadores em tempo real.
Ele mencionou ainda que o tempo de espera nas UPAs teria chegado à média de 10 minutos para atendimento, comparando o dado a planos de saúde privados e reforçando a mensagem de que o sistema público municipal estaria entregando um padrão acima da média.
Servidor público no centro do discurso
Em um momento em que o debate sobre gasto com pessoal costuma ser alvo de controvérsias, o prefeito se declarou abertamente “pró-servidor”.
Segundo ele, a orientação de órgãos de controle – como Tribunal de Contas do Estado (TCE) e Ministério Público – tem sido reforçar a necessidade de prover cargos via concurso público, o que ele afirma estar cumprindo.
O prefeito destacou ainda que sua gestão promoveu o que chamou de “maior contratação de professores da história de São José do Rio Preto”, com foco também na educação especial, ao menos com um professor especialista em cada escola.
Ao mesmo tempo, repetiu o mantra de que “nada supera o trabalho” e emendou o argumento de que secretários e equipe iniciam a jornada antes das 5h da manhã, numa tentativa de sustentar a imagem de dedicação integral e sacrifício pessoal – argumento que volta ao ponto de origem: o CPF do prefeito como aval e como risco.
Polícia Militar, confiança e metade do secretariado fardado
Coronel Fábio, que é da reserva da Polícia Militar, fez questão de lembrar que metade dos secretários é oriunda da corporação. Não negou o caráter político dessa opção:
Segundo o próprio prefeito, a PM é a instituição em que foi “forjado” e da qual levou códigos de disciplina e hierarquia para o governo municipal. Ele citou ter passado 36 anos na corporação sem uma única punição disciplinar, reforçando o discurso de ficha limpa.
O secretário de Fazenda, por exemplo, foi apresentado como o mesmo gestor de recursos que o acompanhou no Comando de Policiamento do Interior-5 (CPI-5), apontado como “homem de confiança” responsável pelo ajuste que teria levado do déficit de R$ 300 milhões ao equilíbrio atual das contas.
Parcerias privadas, Natal na represa e disputa de narrativa
Outro eixo do discurso de Coronel Fábio é a relação com o empresariado. O prefeito disse de forma explícita que “é parceiro do empresário” e se define como economicamente liberal, citando o setor privado como responsável real pela geração de emprego e renda nas cidades.
Ele elencou uma série de ações do Fundo Social de Solidariedade, coordenado pela primeira-dama, como distribuição de óculos para crianças e idosos, cestas básicas, enxovais para mães sem condição de comprar o primeiro enxoval do bebê e, mais recentemente, campanha de Natal com mais de 10 mil brinquedos arrecadados, todas, segundo ele, custeadas por doações empresariais – sem impacto direto no orçamento municipal.
O prefeito voltou a defender a polêmica decoração de Natal na Represa Municipal, apontada por ele como “símbolo da cidade”, viabilizada, segundo sua versão, também por doações. Ele ligou a decoração, a roda gigante e o ônibus gratuito em determinado período ao aumento do movimento no centro comercial, com comerciantes “felizes” e maior arrecadação tributária.
Obras, futuro e a promessa de que “o CPF está em jogo”
No trecho final, Fábio Cândido do discurso voltou a mirar o futuro e a listar projetos estruturantes:
Duplicação da Avenida de Maio;
Drenagem e parque linear na Avenida Murchid Homsi, incluindo pista de caminhada e revitalização do entorno, com impacto sobre enchentes;
Reforma do Fórum Central;
Inauguração do prédio do Instituto de Criminalística em parceria com o Governo do Estado;
Implantação de um sistema integrado de segurança, com 3 mil câmeras e 350 semáforos sincronizados, associado à troca de 74 mil pontos de iluminação por LED.
Ao mesmo tempo, projetou um cenário de internacionalização da cidade, dizendo que Rio Preto já desperta “ciúmes” de outras regiões pelo prestígio crescente junto ao governo paulista e a parceiros externos.
No plano político, respondeu a questionamentos sobre a relação com a Câmara, classificando-a como “republicana”, com oposição reconhecida, mas sem turbulências que impeçam a aprovação de projetos considerados estratégicos pelo Executivo.
Ao longo de toda a fala, porém, o fio condutor foi o mesmo: a ideia de que, em meio a disputas de narrativa sobre IPTU, contratos e prioridades, o prefeito colocaria seu CPF como fiador da gestão.
Ao pedir, em público, que o secretário de Administração e o procurador-geral “cuidem do meu CPF”, Fábio Cândido tenta condensar, em uma imagem só, três mensagens simultâneas:
que se vê pessoalmente exposto às consequências jurídicas de cada ato do governo;
que a blindagem legal e a transparência são pilares de sua administração;
e que, se algo der errado, não será por falta de aviso de quem disse, diante de autoridades e plateia lotada, que tem pouco patrimônio, prestações a pagar e um CPF a zelar – junto com um orçamento bilionário e uma cidade que ele insiste em chamar de “joia do Brasil”.
