O aumento dos casos de violência, abuso sexual e maus-tratos contra crianças e adolescentes será tema do IV Fórum de Combate aos Maus-Tratos na Infância e Adolescência, promovido pelo Hospital da Criança e Maternidade (HCM), nesta sexta-feira (15), em São José do Rio Preto.
O evento será realizado das 7h30 às 13h, no Centro de Convenções da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), e tem como objetivo capacitar profissionais da saúde para identificar sinais de violência infantil, reconhecer suspeitas de maus-tratos e orientar sobre os procedimentos corretos de notificação às autoridades competentes.
A programação reunirá profissionais da saúde, integrantes do Judiciário, forças de segurança, representantes da assistência social e especialistas ligados à proteção da infância e adolescência.
Em entrevista ao Diário do Rodrigo Lima, o juiz da Infância e Juventude de São José do Rio Preto, Evandro Pelarin, afirmou que a realidade enfrentada pela região acompanha o cenário nacional, considerado alarmante pelas autoridades.
“Estamos tendo números muito assustadores, não apenas de violência física, mas também de violências virtuais pela internet”, afirmou o magistrado.
Segundo Pelarin, além dos casos tradicionais de maus-tratos e abuso sexual, cresce o número de situações envolvendo exposição inadequada de crianças em ambientes digitais, assédio virtual e acesso precoce a conteúdos sexualizados.
O juiz destacou que muitos sinais de violência passam despercebidos dentro das próprias famílias ou ambientes escolares.
Entre os principais comportamentos de alerta citados por ele estão mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, interrupção repentina da fala em crianças pequenas, agressividade excessiva, uso incomum de palavrões e atitudes sexualizadas incompatíveis com a idade.
“O relato espontâneo da criança também é um dado muito importante. Muitas vezes ela demonstra de maneira indireta que está sofrendo algum tipo de abuso”, disse.
Pelarin também alertou para um erro recorrente em situações de suspeita: tentar interrogar a criança sem acompanhamento especializado.
Segundo ele, esse tipo de abordagem pode provocar a chamada revitimização – quando a vítima revive o trauma ao repetir relatos fora de ambientes adequados.
“A criança não pode ser ouvida de qualquer forma. Existem espaços próprios previstos em lei, tanto na área da saúde quanto na Justiça, para garantir proteção emocional e segurança durante esse processo”, afirmou.
A orientação das autoridades é que qualquer suspeita de violência, abuso sexual ou maus-tratos seja imediatamente comunicada ao Conselho Tutelar, Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público ou por meio do Disque 100.
O fórum será dividido em quatro eixos temáticos voltados à capacitação prática dos participantes.
O primeiro eixo abordará os aspectos legais e a rede de proteção à criança e ao adolescente, destacando a atuação do Ministério Público e da Vara da Infância.
Já o segundo discutirá os procedimentos legais em casos de violência, mostrando como saúde e polícia podem atuar de forma integrada e como aplicar medidas protetivas.
O terceiro eixo terá foco na identificação clínica e comportamental dos casos dentro do ambiente hospitalar e escolar. Entre os temas previstos estão o reconhecimento de sinais suspeitos, diferenciação entre acidentes e possíveis agressões e a condução adequada dos atendimentos.
Por fim, o quarto eixo debaterá os impactos psicológicos da violência e o acolhimento humanizado das vítimas, incluindo estratégias para evitar a revitimização e fluxos de encaminhamento e acompanhamento ambulatorial.
Além do debate sobre violência física e sexual, o evento também pretende aprofundar discussões sobre o impacto da internet no comportamento infantil e adolescente, especialmente diante do acesso cada vez mais precoce às redes sociais e dispositivos móveis.
“Será que nós, pais, não temos que estar mais atentos? Será que a internet não está contribuindo para uma sexualização precoce? Tudo isso precisa ser debatido”, afirmou Pelarin.
O IV Fórum de Combate aos Maus-Tratos na Infância e Adolescência é voltado para médicos, residentes, aprimorandos, equipes multidisciplinares e acadêmicos da área da saúde. As vagas são limitadas e as inscrições seguem abertas.
O encontro ocorre dentro da mobilização do Maio Laranja, campanha nacional de conscientização e combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.
Dados do Ministério dos Direitos Humanos apontam que milhares de denúncias envolvendo violência infantil são registradas anualmente no país, sendo grande parte dos casos ocorrendo dentro do próprio ambiente familiar.
A expectativa da organização é ampliar a integração entre saúde, Justiça, segurança pública e assistência social para fortalecer o enfrentamento aos maus-tratos e ampliar a proteção às vítimas.
