O Semae (Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto) de São José do Rio Preto mudou neste mês a forma de entrega das contas de água e passou a priorizar a fatura digital. O consumidor que não tem acesso à tecnologia ou prefere continuar recebendo o documento em papel poderá manter a modalidade, mas terá de comunicar essa opção à autarquia.
A mudança atinge potencialmente uma base de cerca de 200 mil consumidores e faz parte de um pacote de modernização colocado em prática em agosto. Além da digitalização das contas, o Semae lançou um programa para renegociar um estoque estimado em R$ 300 milhões em dívidas e passou a permitir o pagamento com cartão quando a equipe chega ao imóvel para executar o corte do abastecimento.
Em entrevista ao podcast Diário do Rodrigo Lima, o diretor comercial do Semae, Leandro Freitas, e a coordenadora de faturamento, Vivian Constantino, detalharam as mudanças e afirmaram que a intenção é ampliar os canais de atendimento e reduzir despesas que podem ser convertidas em investimentos no sistema de água e esgoto.
A mudança para o digital também representa uma alteração na rotina de quem está acostumado a receber a conta no momento da leitura do hidrômetro. Mesmo para aqueles que optarem pela versão impressa, a fatura não será mais entregue imediatamente após a medição.
Segundo o Semae, a conta em papel deverá chegar ao imóvel aproximadamente sete a dez dias depois da leitura.
Semae calcula custo de R$ 2 por conta impressa
Um dos principais argumentos da autarquia para ampliar a digitalização é financeiro.
Segundo Freitas, o custo de impressão e entrega fica em torno de R$ 2 por fatura. Considerando aproximadamente 200 mil consumidores, o desembolso poderia atingir R$ 400 mil mensais caso todas as contas fossem impressas e entregues.
Em um período de 12 meses, uma conta hipotética nesse patamar corresponderia a R$ 4,8 milhões. O Semae não afirmou, porém, que economizará esse valor – o montante citado na entrevista representa o custo potencial caso as 200 mil faturas fossem entregues fisicamente todos os meses.
A autarquia afirma que a redução dessas despesas pode abrir espaço para investimentos em expansão de redes e ações de combate às perdas de água.
Outro dado ajudou a embasar a decisão.
Mesmo antes da mudança, mais de 100 mil guias de pagamento eram retiradas pelo site do Semae, segundo os entrevistados. Na avaliação da autarquia, o número indicava que muitos consumidores recebiam a conta impressa, mas recorriam posteriormente aos canais digitais para realizar o pagamento.
Adesão salta de 10 mil para 55 mil
A fatura digital não é uma novidade no Semae. O serviço está disponível desde 2019.
Até pouco antes da campanha realizada para a mudança de agosto, porém, aproximadamente 10 mil consumidores haviam aderido à modalidade.
Após a intensificação da divulgação, com informações distribuídas aos consumidores e campanhas em diferentes meios, esse número chegou a 55 mil adesões, segundo os dados apresentados durante a entrevista.
A fatura enviada eletronicamente contém código de barras e QR Code para pagamento via Pix. Quem ainda prefere pagar presencialmente em uma lotérica poderá apresentar o código de barras pelo celular.
Papel não acaba, mas consumidor precisa fazer opção
Apesar da prioridade dada ao formato digital, o Semae afirma que não vai obrigar todos os consumidores a abandonar a conta impressa.
Idosos, pessoas com dificuldade de acesso à internet ou qualquer consumidor que prefira continuar com o documento físico poderão solicitar a manutenção da entrega.
A manifestação precisa ser feita uma vez. Depois de registrada a opção, segundo a autarquia, a conta continuará sendo enviada mensalmente em papel.
O Semae informou que disponibiliza diferentes canais para esse cadastramento, incluindo postos presenciais e atendimento remoto.
A diferença estará no prazo: a conta impressa não chegará mais junto com a leitura do hidrômetro e deverá ser entregue entre sete e dez dias depois.
Digitalização traz preocupação com golpes
A migração de contas para e-mail e outros meios digitais também amplia a necessidade de atenção às tentativas de fraude.
Questionados sobre o risco de falsas cobranças, os representantes do Semae disseram que o consumidor deve conferir os dados apresentados antes de fazer qualquer pagamento, principalmente nome da autarquia, CNPJ, valor e identificação do beneficiário.
Segundo Vivian, as faturas digitais são enviadas a partir do canal eletrônico do Semae e possuem informações que permitem ao consumidor verificar a autenticidade da cobrança.
Em caso de dúvida, a orientação é não efetuar o pagamento antes de confirmar as informações pelos canais oficiais da autarquia.
Dívida de consumidores chega a R$ 300 milhões
A digitalização das contas ocorre ao mesmo tempo em que o Semae tenta enfrentar outro problema financeiro: a inadimplência.
De acordo com os dados apresentados no podcast, aproximadamente 20 mil consumidores acumulam cerca de R$ 300 milhões em débitos com a autarquia.
Para recuperar parte desse dinheiro, o Semae colocou em funcionamento o PPI (Programa de Pagamento Incentivado).
Podem entrar na negociação os débitos vencidos até 31 de dezembro de 2025.
Quem fizer o pagamento à vista terá 100% de desconto sobre juros e multas. Para quem optar pelo parcelamento, o abatimento pode chegar a 85%, com pagamento em até 60 meses.
As condições são ainda mais amplas para consumidores enquadrados na tarifa social e para entidades filantrópicas: nesses casos, segundo o Semae, há desconto de 100% sobre juros e multas e possibilidade de parcelamento em até 120 vezes.
Quem já possui um parcelamento em andamento também pode renegociar o saldo nas condições do programa.
O PPI fica disponível até 10 de dezembro de 2026.
Meta é negociar R$ 30 milhões
Embora o estoque de débitos esteja estimado em R$ 300 milhões, o Semae trabalha com uma meta mais conservadora para o programa.
A expectativa é negociar aproximadamente R$ 30 milhões e efetivamente receber cerca de R$ 10 milhões até o encerramento do PPI.
Segundo os representantes da autarquia, os valores recuperados deverão ser direcionados a melhorias no sistema de abastecimento e na infraestrutura do Semae.
Consumidor poderá pagar na porta de casa para evitar corte
Outra mudança implementada em agosto mexe diretamente com o procedimento de suspensão do abastecimento por inadimplência.
Quando uma equipe chegar ao imóvel para realizar o corte, o consumidor terá uma última possibilidade de regularização: pagar a dívida com cartão naquele momento e impedir a interrupção do fornecimento.
A máquina acompanhará o funcionário responsável pelo serviço. O pagamento poderá ser feito no débito ou no crédito, com possibilidade de parcelamento em até 12 vezes.
Segundo o Semae, a medida não elimina os procedimentos que antecedem o corte. A autarquia afirma que o consumidor é previamente notificado sobre a dívida e que também utiliza ligações e mensagens de SMS para alertar sobre a possibilidade de suspensão.
A maquininha funciona, portanto, como uma alternativa adicional no momento em que a equipe já está no imóvel para interromper o abastecimento.
Rio Preto registra até 4 mil cortes por mês
O Semae realiza, em média, entre 3mil e 4 mil cortes de água por mês, de acordo com Freitas.
O número representa uma parcela da base de aproximadamente 200 mil consumidores. Segundo o diretor, parte significativa dos usuários regulariza posteriormente a situação e solicita a religação do abastecimento.
A possibilidade de pagamento no local busca justamente reduzir esse percurso.
Antes da implantação das máquinas, consumidores interessados em parcelar a dívida precisavam realizar procedimentos de negociação pelos canais da autarquia. Em determinadas situações, também era necessária autorização do proprietário do imóvel.
Com a nova modalidade, o consumidor poderá usar o próprio cartão para parcelar o valor e resolver a pendência no momento da visita.
O Semae afirma que, após a confirmação do pagamento, a dívida é identificada pelo sistema e a ordem de corte pode ser cancelada em até cinco minutos.
Maquininha do Semae terá identificação própria
A cobrança na porta de casa também provoca uma preocupação: como saber se quem está segurando a máquina é realmente um funcionário autorizado?
Segundo Freitas, o equipamento usado pelas equipes não é uma maquininha convencional.
O funcionário estará uniformizado, e a máquina terá identificação visual do Semae e um aplicativo integrado ao sistema da autarquia.
Ao inserir o cadastro do consumidor, o equipamento permite conferir informações relacionadas ao imóvel, como nome do proprietário e endereço. Após a operação, é emitido recibo com dados do Semae e CNPJ.
A autarquia afirma que a máquina é destinada especificamente aos pagamentos vinculados ao seu cadastro de consumidores.
Mais de 12 mil estão na tarifa social
Para os consumidores de baixa renda, o Semae mantém a tarifa social.
Segundo Freitas, são mais de 12 mil consumidores nessa modalidade. Para consumo de até dez metros cúbicos, o valor informado pela autarquia é de R$ 12,60.
Na tarifa residencial convencional, o valor mínimo citado durante a entrevista foi de aproximadamente R$ 50.
A tarifa social é um dos mecanismos utilizados pela autarquia para tentar conciliar a necessidade de arrecadação com a manutenção do acesso à água por famílias em situação de vulnerabilidade.
Combate às perdas exige abrir ruas
As mudanças na área comercial ocorrem paralelamente a investimentos na infraestrutura de abastecimento.
De acordo com o Semae, o índice de perdas de água em Rio Preto está abaixo de 20%.
Reduzir ainda mais esse percentual exige troca de redes, ramais e outras intervenções subterrâneas — obras que frequentemente provocam transtornos no trânsito e exigem a abertura do pavimento.
A questão ganhou visibilidade em Rio Preto com reclamações sobre intervenções realizadas inclusive em vias recentemente recapeadas.
Freitas afirmou que, quando as obras são programadas, o Semae procura executá-las antes do recapeamento. Vazamentos e problemas emergenciais, porém, podem obrigar a autarquia a abrir uma rua mesmo depois da aplicação de asfalto novo.
Equipes trabalham inclusive no período noturno com equipamentos capazes de auxiliar na identificação de vazamentos subterrâneos.
Segurança hídrica é desafio para uma cidade em expansão
Por trás das mudanças de cobrança, digitalização e redução de custos está uma questão estrutural que deverá acompanhar Rio Preto nos próximos anos: garantir água para uma cidade que continua crescendo.
O Semae afirma manter um comitê permanente para acompanhar as condições do abastecimento e dos poços e diz estar preparado para enfrentar o período de estiagem de 2026.
No médio e longo prazo, a autarquia estuda alternativas para ampliar a segurança hídrica. Uma delas é a possibilidade de buscar água no Rio Grande.
A discussão envolve os limites da atual estrutura de abastecimento.
Durante a entrevista, Freitas explicou que simplesmente aprofundar ou ampliar a capacidade das represas municipais não resolveria isoladamente o problema. Além das limitações físicas provocadas pela ocupação urbana no entorno, há limites para a quantidade de água que pode ser retirada sem comprometer a vazão necessária à manutenção ambiental do curso d’água.
Rio Preto também utiliza água subterrânea dos aquíferos Bauru e Guarani. Segundo o Semae, os sistemas atuais são suficientes para atender a população, mas o crescimento da cidade exige planejamento para os próximos anos.
É nesse cenário que a autarquia tenta conectar decisões aparentemente distintas.
A conta que deixa de ser impressa representa redução de despesas. O PPI tenta transformar parte de uma dívida de R$ 300 milhões em dinheiro efetivamente recebido. A maquininha na porta de casa procura aumentar a possibilidade de pagamento antes de um corte. E as obras de substituição das redes buscam impedir que parte da água produzida desapareça antes de chegar às torneiras.
No fim, digitalização, cobrança e investimentos convergem para o mesmo desafio: manter o Semae financeiramente sustentável e garantir água para uma Rio Preto cada vez maior.
