Em entrevista ao Podcast Diário do Rodrigo Lima, a secretária de Desenvolvimento Social de São José do Rio Preto, Sandrinha Reis, que também acumulava interinamente a pasta de Habitação, descreveu uma gestão ancorada em dois eixos: reorganização das políticas para a população em situação de rua e redesenho da política habitacional do município. Nesta segunda-feira, 24, o prefeito Coronel Fábio (PL) confirmou o nome do vereador Jorge Menezes (PSD) para o cargo de secretário de Habitação.
“Nosso trabalho hoje é separar o joio do trigo: quem é morador de rua, em vulnerabilidade, e quem é bandido, traficante, gente que está ali para prejudicar essa população e os demais munícipes”, afirmou.
População de rua: direito de ir e vir e triagem com GCM
A secretária reconhece que a presença de pessoas em situação de rua é um problema recorrente e sem solução definitiva, citando experiências em grandes cidades do exterior. “A questão da população de rua não foi solucionada no mundo”, disse, relatando que viu cenários semelhantes em viagens a outros países.
Segundo ela, a política municipal precisa conciliar o direito de ir e vir com a ocupação do espaço público:
“Podemos limpar o espaço, pedir que saiam da calçada, da passagem, organizar o ambiente. O que não podemos é impedir que a pessoa esteja na rua.”
Sandrinha afirma que a atual gestão, em conjunto com a Guarda Civil Municipal (GCM) e a Secretaria de Segurança, vem ampliando a abordagem para além do quadrilátero central, identificando perfis distintos entre os que vivem nas ruas – trecheiros, estrangeiros, pessoas que perderam vínculos familiares, usuários de drogas e aqueles que optam por um “estilo de vida alternativo”.
Ela diz que o trabalho da GCM e das equipes sociais “quadruplicou” em produtividade após a descentralização das abordagens para outras regiões da cidade, produzindo um mapa mais real da população em situação de rua.
Marmita como moeda de troca e uso da “lei do sujão”
A secretária também criticou ações voluntárias desordenadas de distribuição de alimentos nas ruas, que, segundo ela, podem ser cooptadas pela lógica do tráfico.
“Hoje a marmita acaba sendo moeda de troca. Usuários de droga se infiltram, pegam marmitas para vender, para trocar por uma pedra de crack”, disse.
Ela afirma que a prefeitura tem orientado grupos religiosos e filantrópicos a concentrar a entrega em locais estruturados, como o Centro Pop, e tem usado a chamada “lei do sujão” para responsabilizar quem distribui comida sem recolher o lixo gerado.
“Chegamos e perguntamos: ‘Onde estão seus sacos de lixo? Você precisa ficar até o fim para recolher as marmitas’. A marmita que você traz vira lixo no espaço público”, afirmou.
Segundo Sandrinha, pessoas em situação de rua cadastradas “bonitinho” no sistema municipal têm direito a café da manhã, almoço e jantar custeados pelo município, desde que cumpram regras de cadastro, renda e permanência.
Reconecta e trabalho gradual com quem perdeu a dignidade
A secretária anunciou o projeto “Reconecta”, em fase piloto e previsto para ser lançado no próximo ano, voltado à reestruturação emocional e produtiva de pessoas em situação de rua acolhidas em pousadas e casas de passagem.
Segundo ela, não é possível simplesmente “pegar o morador de rua e colocar direto no mercado de trabalho”.
“Ele perdeu a dignidade, perdeu a fé de que é capaz. Primeiro precisa de apoio emocional, psicológico, atividades internas, para depois dar o próximo passo”, disse.
O projeto prevê, por exemplo, cozinha para produção de pães, horta e outros trabalhos que atendam tanto ao autoconsumo quanto à geração de renda.
Retorno assistido, ex-presos e imigrantes
Sandrinha relatou articulações com diretores de presídios para organizar o retorno de ex-presidiários que saem das unidades da região e acabam em Rio Preto sem qualquer rede de apoio. A ideia é, ao menos, criar um fluxo de informação que permita saber quando essas pessoas chegarão ao município e para onde serão encaminhadas.
Ela também citou o “retorno assistido” de imigrantes, como venezuelanos e bolivianos, após uma operação que identificou exploração de mão de obra. Em um caso relatado pela secretária, famílias bolivianas viviam em condições degradantes e foram identificadas depois de ver, nas redes sociais, um vídeo da prefeitura sobre o programa de retorno; inicialmente, procuraram o serviço apenas para pedir passagem de volta.
“O que me marcou foi que eles contavam aquela situação de exploração como se fosse normal. Trabalhar por comida, ter a comida reduzida porque a mulher grávida trabalhava menos, cortar alimento do filho. Isso não é normal”, afirmou.
Caso de idosa em lista de espera vira “peso nas costas”
A secretária disse que um dos episódios que mais a marcou foi o de uma idosa em situação de vulnerabilidade que aguardava vaga e morreu antes de ser atendida.
No início da gestão, segundo ela, houve demora na resposta interna para encaminhamento dessa mulher a um local adequado. Quando cobrou a solução, dias depois, foi informada de que ela havia falecido.
“Eu sempre digo que essa pessoa está nas minhas costas. Como eu vou esquecer de uma vida? Isso fez eu mudar prazos dentro da secretaria: para vulnerabilidades mais graves, dou uma semana. ‘Se virem’, eu digo. Não assino nada com mais de sete dias sem que o caso seja estudado”, afirmou.
Ampliação dos conselhos tutelares e Casa dos Conselhos
Na área de proteção à infância e juventude, Sandrinha classificou como “superconquista” a ampliação de dois para quatro conselhos tutelares em Rio Preto, seguindo orientação do Conanda de um conselho a cada 100 mil habitantes.
Segundo ela, o município já atingia 400 mil habitantes desde 2010, mas a expansão não havia ocorrido em gestões anteriores. Para reduzir custos e dar agilidade, a prefeitura criará a “Casa dos Conselhos”, que vai reunir os quatro conselhos tutelares e conselhos de direitos em um mesmo prédio na Zona Norte, onde funcionava a antiga Secretaria do Trabalho.
“Quando fiz o estudo, vi que dava para enxugar custos e melhorar a qualidade do atendimento, com motorista, estrutura e equipe no mesmo espaço”, disse.
Habitação: de reúrb ao plano municipal e novas moradias
Como secretária interina de Habitação, Sandrinha afirmou que Rio Preto não tinha plano municipal de habitação e que sua equipe trabalha para deixar o documento estruturado.
Ela disse que a pasta, historicamente, se limitava à regularização fundiária (reúrb) de loteamentos irregulares, mas agora passa a olhar também para políticas de construção de moradias, cartas de crédito e programas como Minha Casa Minha Vida e Casa Paulista.
Segundo a secretária, o município recebeu 1.050 cartas de crédito do governo do Estado neste ano e articula com construtoras e incorporadoras, em parceria com a Secretaria de Habitação do Estado, formas de viabilizar empreendimentos de Habitação de Interesse Social em um cenário de alta do aluguel. Ela cita que Rio Preto figura entre as cidades com maior valor de locação do Estado.
Sandrinha defende alterações na legislação urbana local para permitir unidades menores, voltadas a pessoas que querem morar sozinhas, e empreendimentos híbridos com apartamentos e casas de tamanhos diferentes.
Ela também citou parcerias com a Emcop e casos “pontuais” de moradias entregues a famílias em situação de extrema vulnerabilidade, como o da dona Valéria, mencionado pelo entrevistador.
A Vila Dignidade, conjunto de casas para idosos em vulnerabilidade, é outro exemplo citado: segundo Sandrinha, o espaço estava abandonado, com 11 das 14 casas vazias e eletrodomésticos estragados desde 2015. Hoje, diz ela, são 28 vagas para idosos autônomos de baixa renda, com gestão em parceria com uma associação.
Destinação solidária do IR e selo para empresas
Na área de financiamento de políticas sociais, a secretária anunciou a “Destinação Solidária do Imposto de Renda”, a ser lançada em evento na Acirp. A ideia é incentivar empresas de lucro real a direcionar parte do IR devido a projetos sociais em Rio Preto, com a possibilidade de indicar diretamente a organização da sociedade civil beneficiada.
A prefeitura criará o selo “Empresa Amiga do Município” para quem aderir ao mecanismo. “Em vez de pagar para o governo federal, a empresa deixa o recurso aqui, para ser aplicado em projetos que atendem a população do município”, disse.
Relação com o Novo, emendas e cenário eleitoral
Filiada ao partido Novo, Sandrinha afirma que se licenciou da coordenação municipal da sigla ao assumir a secretaria e que não será candidata em 2026.
Ela defende manter “neutralidade prática” no cargo para dialogar com parlamentares de diferentes legendas e captar emendas para projetos de assistência e habitação. A secretária cita como exemplo a deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP), que destinou R$ 3,2 milhões para ações em um bairro da cidade, e o deputado Paulo Freire, que viabilizou uma van para o Centro de Convivência da Juventude (CCJ).
Sandrinha diz que ainda não consegue apontar um “time” consolidado de deputados parceiros da prefeitura, já que muitas emendas vêm carimbadas para entidades e não diretamente para o município.
Gestão, conflitos e avaliação do governo
Ao avaliar o primeiro ano de governo do prefeito Coronel Fábio Cândido, a secretária deu “nota 10” para a dedicação interna da equipe e “nota 7” no olhar de parte da população, que, segundo ela, não enxerga o trabalho de revisão de contratos e mudança de práticas administrativas.
Ela afirma que a gestão atual encontrou contratos “caríssimos” e um modo de atuação “estagnado” após anos de alternância entre grupos políticos locais, mas diz que muitas situações ainda estão em fase de apuração ou sem comprovação formal.
Sobre embates na Câmara, Sandrinha relatou um episódio em que registrou boletim de ocorrência após se sentir coagida por um vereador, sem citar diretamente Jão Paulo Rillo (PT), em audiência pública, e disse que não aceita ser caracterizada de forma que não corresponda à sua atuação.
“Eu não faço teatro e não aceito teatro. Prefiro mostrar que trabalho com entregas, projetos e prestação de contas nas redes sociais”, afirmou.
A secretária, que tem tatuado no braço o lema “Nada resiste ao trabalho”, resume assim o estilo de gestão que tenta imprimir na assistência e na habitação: “Se é time, é time. Eu defendo o governo porque estou dentro. E vou cobrar prazos e resultados porque lido com vidas em vulnerabilidade. Não dá para empurrar para 30 dias o que precisa ser resolvido em uma semana.”
