A ex-secretária municipal de Desenvolvimento Social de São José do Rio Preto Sandra Reis afirmou em entrevista exclusiva ao Podcast Diário do Rodrigo Lima que a reunião com a conselheira tutelar Janaína Albuquerque, alvo de denúncia levada ao Ministério Público, teve caráter informal e de aproximação política e institucional, e não de cooptação ou oferta irregular de vantagens. Na mesma entrevista, Sandrinha confirmou que deixará o Novo e será pré-candidata a deputada estadual pelo PL, em movimento alinhado ao grupo do prefeito Coronel Fábio Candido (PL).
A entrevista ocorre em meio à crise política aberta após a denúncia apresentada pela conselheira tutelar Janaína Albuquerque ao Ministério Público de São Paulo. Como já divulgado, o MP deu prazo de 20 dias para que o prefeito se manifeste sobre os fatos narrados, diante de indícios que, em tese, poderiam envolver violação a princípios da administração pública e possíveis ilícitos de natureza cível e penal.
Segundo a representação da conselheira, a reunião ocorreu em dezembro de 2025 na sede da Secretaria de Desenvolvimento Social. Janaína afirmou que, no encontro, Sandrinha teria sugerido a possibilidade de aproximação com o grupo político do governo e mencionado eventual proposta remunerada, além de fazer referência ao fato de o prefeito “estar com a máquina”. A conversa foi gravada pela própria conselheira e anexada à denúncia.
No podcast, Sandrinha apresentou sua versão dos fatos e disse que a conversa foi distorcida.
“Eu convidei para conversar de forma muito informal, de troca de ideias, e foi isso que aconteceu”, afirmou.
Ela disse que a intenção era aproximar Janaína da gestão por considerá-la uma pessoa qualificada e capaz de contribuir com o governo.
“Eu entendi que ela era uma pessoa que poderia estar junto conosco. Não estar junto por se vender, nada disso, mas estar junto de uma maneira muito positiva”, declarou.
Reunião a sós e menção ao processo
Questionada sobre o fato de ter chamado a conselheira para uma conversa reservada dentro da secretaria, Sandrinha disse que não houve nada fora do padrão.
Segundo ela, reuniões individuais são comuns na atividade pública e política, e a conversa envolvia também aspectos pessoais. A ex-secretária afirmou que a reunião aconteceu em ambiente institucional e seguro, dentro da própria pasta, e negou que tenha tomado qualquer medida de ocultação ou cautela extraordinária.
Ao ser perguntada sobre a menção a um processo judicial envolvendo a conselheira, Sandrinha minimizou o tema e afirmou que esse não era o foco da conversa.
“Esse assunto saiu à tona naquele momento. E eu disse que não era sobre isso, que era realmente sobre ela estar perto de nós, ela poder fazer um trabalho conjunto com a gente”, afirmou.
Ela também negou que tivesse recebido autorização do prefeito para intervir em qualquer demanda judicial.
“De forma alguma. Eu não posso falar sobre um processo que não me envolve”, disse.
Ao mesmo tempo, reconheceu que mantinha alinhamento político com a gestão sobre conversas e tentativas de aproximação com nomes que pudessem contribuir com o governo.
Frase sobre “proposta de cinco mil”
Um dos trechos centrais da denúncia envolve a fala em que Sandrinha menciona uma proposta de “cinco mil”. No podcast, a ex-secretária negou qualquer oferta indevida e disse que a frase foi retirada de contexto.
Segundo ela, a referência a valores ocorreu em uma conversa sobre possibilidades legais de trabalho dentro da administração, caso houvesse interesse da conselheira em atuar próxima ao grupo.
“Toda vez que você coloca dinheiro no meio, chama atenção. Mas quando você vai trazer as pessoas para trabalhar legalmente, para fazer as coisas corretas, você vai falar de valores”, afirmou.
Na sequência, ela sugeriu que o valor citado poderia se referir à remuneração aproximada de um assessoramento comissionado, mas disse que não tinha autonomia para fazer uma nomeação sozinha e que qualquer movimento dependeria da anuência do restante da gestão.
“Era uma ideia, deixa eu sentir. E aí eu levo, eu falo: deixa eu trazer para perto de mim”, declarou.
“Recorte maldoso” e reação jurídica
Durante a entrevista, Sandrinha afirmou diversas vezes que o conteúdo divulgado da reunião foi editado de forma parcial e maliciosa. Ela disse que o áudio completo, segundo sua defesa, afastaria a interpretação de cooptação política ou oferta de vantagem indevida.
“Foi feito de uma maneira não só recorte, mas maldosa, para ser uma calúnia”, disse.
A ex-secretária afirmou ainda que foi surpreendida ao descobrir que a conversa havia sido gravada, disse que nunca imaginou que isso pudesse acontecer e declarou que seus advogados já analisaram o material.
“Hoje, após a reunião, os meus advogados, que já tiveram acesso a essa gravação, eu estou totalmente tranquila”, afirmou.
Ela também relacionou a denúncia a um ambiente de “retaliação” e disputa política, especialmente após embates envolvendo o Conselho Tutelar e cobranças administrativas feitas pela secretaria.
Críticas à oposição e à repercussão pública
Sandrinha usou a entrevista para reagir à repercussão do caso no meio político e setores da imprensa. Disse que se sentiu alvo de uma articulação para desgastar sua imagem pública e afirmou que houve narrativas construídas contra ela sem o devido espaço para sua versão.
“Existe toda uma articulação acontecendo para que a sua imagem seja atingida. E eu não vou deixar isso acontecer”, afirmou.
Em outro momento, disse que jamais teve problemas judiciais e que a acusação representa um episódio traumático em sua trajetória.
“Eu nunca tive um processo. Nunca tive. Nada, meu nome, nada em processo”, declarou.
Também rebateu críticas à sua passagem pela Secretaria de Desenvolvimento Social e afirmou que deixou a pasta com a convicção de ter promovido avanços.
Segundo ela, sua gestão fortaleceu políticas públicas e medidas de captação para entidades sociais, e a continuidade do trabalho estaria garantida com Lana Braga, que a sucedeu no comando da secretaria.
Exoneração e entrada no PL
Na parte mais política da entrevista, Sandrinha confirmou que será pré-candidata a deputada estadual em 2026. Ela afirmou que a decisão amadureceu após a crise e que aceitou convite para ingressar no PL, partido do prefeito Coronel Fábio Candido.
“Eu estarei logo mais pré-candidata a deputada estadual pelo PL”, anunciou.
Segundo ela, a decisão foi conjunta com a gestão e não resultou de imposição ou afastamento forçado. A ex-secretária negou qualquer rompimento com o prefeito e afirmou que continua integrada politicamente ao grupo de governo.
“Eu sinto-me muito segura com essa gestão e continuarei sendo gestão do prefeito Coronel Fábio Candido, independente de estar secretária”, disse.
Sandrinha sustentou ainda que sua saída da pasta teve relação com a necessidade de defender a própria imagem sem contaminar o governo.
“A minha imagem pessoal não pode se sobrepor à gestão e ao cargo que eu estava”, afirmou.
Contexto da denúncia
A denúncia apresentada por Janaína Albuquerque ao Ministério Público sustenta que a reunião de dezembro teria ultrapassado os limites de uma conversa política ou administrativa e avançado para uma suposta tentativa de cooptação de uma agente do sistema de garantia de direitos.
Na representação, a conselheira aponta possíveis irregularidades como tentativa de corrupção, coação no curso de processo, advocacia administrativa, abuso de autoridade e violação aos princípios da administração pública. A gravação da reunião foi anexada ao procedimento.
Após a repercussão do caso, a Prefeitura informou que Sandrinha pediu exoneração. Na ocasião, o governo afirmou que o prefeito desconhecia o episódio e classificou a conduta como uma iniciativa pessoal da então secretária, sem intenção de intimidar qualquer pessoa.
Agora, com a manifestação pública de Sandrinha no podcast, o caso ganha novo capítulo político. De um lado, a conselheira mantém a denúncia e pede responsabilização caso as irregularidades sejam confirmadas. De outro, a ex-secretária nega ilegalidades, fala em má-fé, promete reação judicial e transforma a crise em plataforma de lançamento de sua futura candidatura.
O desfecho dependerá da análise do Ministério Público feita pelo promotor Carlos Romani, que avalia o áudio integral, os documentos apresentados e as manifestações que ainda serão colhidas no curso da apuração.
