PODCAST – Déficit habitacional expõe desafio: Emcop registra 16 mil buscas por moradia

Rodrigo Lima

O último episódio de 2025 do Podcast Diário do Rodrigo Lima recebeu o presidente da Empresa Municipal de Construções Populares (Emcop), Matheus Motta, que fez um balanço do primeiro ano de trabalho à frente do órgão e avaliou a gestão do prefeito Coronel Fábio Cândido (PL) na área de habitação popular em São José do Rio Preto. Ao longo da entrevista, ele tratou de temas como o impacto do programa Minha Casa, Minha Vida – Faixa 1 no município, o tamanho da fila por moradia, a atuação da Emcop em projetos próprios e o peso da articulação política em Brasília.

Motta afirmou que 2025 foi um ano “bom” para a Emcop e para o governo, marcado por uma espécie de “arrumação da casa” após sua chegada à presidência da empresa, na metade do ano, sucedendo o atual vereador Marcelo Renato. Segundo ele, a gestão anterior já havia deixado a estrutura organizada, mas ainda havia pendências a resolver. Em paralelo ao fechamento de contas, pagamento de 13º salário e balanço anual, a equipe concentrou esforços em um dos principais movimentos do ano: o ciclo de inscrições para 400 unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida – Faixa 1, em construção nos bairros Residencial Gabriela e Jardim Antonieta, com 200 moradias em cada empreendimento.

O presidente relatou que a procura superou as expectativas. Ao longo do período de inscrições, encerrado em 20 de dezembro, cerca de 16 mil famílias buscaram informações ou atendimento. Desse total, foram realizados mais de 9,5 mil atendimentos presenciais, com aproximadamente 5 mil famílias efetivamente inscritas dentro dos critérios do programa, disputando as 400 unidades. Na prática, o processo revelou uma realidade dura: mesmo com as entregas previstas, mais de 4 mil famílias que preenchem os requisitos continuarão sem casa própria, aguardando novos projetos. Ao mesmo tempo, o mutirão de inscrições serviu para atualizar o cadastro habitacional do município, ferramenta considerada estratégica para medir o déficit de moradia em Rio Preto.

Motta destacou que a seleção dos beneficiários segue regras federais e não é mais feita por sorteio ou por escolha política local. Os critérios, definidos em portarias do governo federal, levam em consideração renda, composição familiar e situações específicas, como mães solo, idosos e famílias com mais crianças. Ele citou ainda uma cota de 3% das unidades reservada para pessoas em situação de rua, que necessariamente devem ser contempladas, além da exigência de que grande parte dos inscritos esteja com o CadÚnico atualizado, incluindo beneficiários de programas como Bolsa Família e BPC. O cruzamento de dados com sistemas federais é usado, segundo o presidente, para dar mais segurança ao processo e evitar fraudes.

Questionado sobre tentativas de burlar as regras, o dirigente reconheceu que esse tipo de comportamento é frequente. Citou exemplos de casais que tentam se inscrever separadamente como se não fossem uma única família, além de casos de pessoas que negam ter imóvel, embora conste no sistema um bem em seu nome. Para ele, essas situações vão além de falta de informação e se aproximam de “malandragem”: quando alguém que já possui patrimônio tenta ocupar uma vaga destinada a quem não tem nenhuma moradia, prejudica justamente o público que mais precisa da política habitacional.

Além das parcerias com o governo federal, a Emcop mantém programas próprios de construção de casas sociais com recursos municipais. Nesses projetos, a empresa utiliza terrenos da prefeitura, elabora os projetos por meio de seu corpo técnico e executa as obras com mão de obra própria. De acordo com Motta, o custo de uma casa padrão, somando terreno e construção, fica entre R$ 60 mil e R$ 70 mil, valor considerado abaixo do praticado pelo mercado. As unidades não são doadas: antes da definição dos contemplados, assistentes sociais avaliam a situação de cada família, incluindo renda, capacidade de pagamento e vulnerabilidades, para definir quem tem condições de assumir parcelas “sociais”, ajustadas para caber no orçamento de quem historicamente não consegue sair do aluguel.

O presidente mencionou entregas recentes que simbolizam o foco social da Emcop, como a casa destinada a uma mãe com duas filhas em área atendida pelo Caic e outra, no bairro João Paulo, entregue a uma mãe solo com cinco filhos, sendo a mais nova uma criança com deficiência e uso de traqueostomia. Segundo ele, além da questão material, essas ações representam um ganho de dignidade para famílias que, muitas vezes, sequer conseguem firmar contrato de aluguel em razão do preconceito ou da desconfiança de proprietários.

Para 2026, Motta afirmou que a meta “pé no chão” é construir pelo menos 19 casas dentro dos programas próprios da Emcop, mas sinalizou que esse número pode crescer com o reforço de recursos prometidos pela prefeitura. Ele credita parte do otimismo à perspectiva de aumento de receita em razão de medidas como parcerias público-privadas e à sinalização do prefeito Coronel Fábio e do vice-prefeito e secretário de Obras, Fábio Marcondes, de que haverá mais verbas disponíveis para projetos de todas as áreas, incluindo habitação. A orientação, segundo o dirigente, foi para que as pastas se preparem para “projetos maiores”, que poderão ser executados caso a questão financeira esteja equacionada.

A entrevista também abordou o papel da articulação política em Brasília. Filho do deputado federal Luiz Carlos Motta (PL), Matheus reconheceu o pai como seu padrinho político e destacou a importância de ter um parlamentar da cidade no Congresso para abrir portas em ministérios. Ele relatou que esteve recentemente no Ministério das Cidades, em reunião com o ministro Jader Filho, para discutir projetos de habitação popular e mapear programas disponíveis no governo federal que possam ser trazidos para Rio Preto, especialmente aqueles que muitas vezes não chegam com clareza ao interior por falta de informação ou de interlocução.

Na avaliação de Matheus, um presidente de empresa pública ou secretário municipal dificilmente conseguiria uma audiência direta com um ministro sem o apoio de um deputado da base local. Essa ponte, argumenta, é relevante não apenas para a Emcop, mas para todas as áreas da administração que precisam de recursos ou projetos federais. Sobre o futuro eleitoral do pai, o presidente da Emcop afirmou que a candidatura à reeleição em 2026 está encaminhada e observou que disputas partidárias em torno de nomes com votação expressiva fazem parte do cálculo eleitoral, que hoje, segundo ele, precisa ser guiado pela “matemática” do sistema político.

Ao falar do próprio caminho, Matheus não descartou a possibilidade de disputar um mandato legislativo no futuro. Ele disse que não pretende concorrer em 2026, mas considera “natural” que alguém que ingressa na vida pública almeje, em algum momento, participar de uma eleição e sentir a “emoção” de uma vitória nas urnas, especialmente sendo filho de um deputado. Ele classificou essa possibilidade como meta para um futuro próximo, sem cravar datas, mas admitindo que seu nome já circula em conversas de bastidores.

Motta também discorreu sobre os desafios da gestão. Segundo ele, o primeiro impacto ao assumir a presidência da Emcop foi a combinação entre juventude e responsabilidade. Fora os estagiários, afirmou ser o mais jovem da equipe, o que inicialmente gerou resistência de parte dos servidores e diretores diante de um presidente mais novo que a maioria dos subordinados. Com o tempo, diz ter buscado se firmar com base em estudo, domínio técnico e diálogo. Outro ponto recorrente, segundo ele, é a burocracia da máquina pública. Embora admita que os procedimentos, prazos e múltiplas instâncias de conferência muitas vezes retardem decisões, Matheus afirma ter compreendido esse sistema como um mecanismo necessário de controle e prevenção de falhas, especialmente em áreas sensíveis como licitações e compras.

Sobre o estilo de gestão de Coronel Fábio, o presidente da Emcop afirmou que o prefeito é presente, cobra resultados e não “deixa a corda frouxa”. De acordo com ele, secretários e dirigentes têm margem de atuação, mas sempre subordinada ao projeto político eleito pela população. Cada decisão, avalia, reflete na imagem do governo como um todo, o que aumenta a responsabilidade dos auxiliares diretos do prefeito.

A Emcop também mantém um projeto social associado aos empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida – Faixa 1, voltado à integração das famílias aos novos bairros. O trabalho inclui orientação sobre serviços públicos, como escolas, unidades de saúde, transporte e equipamentos urbanos disponíveis na região, ajudando na adaptação dos moradores ao novo ambiente. Em um dos residenciais, o Solidariedade, a Emcop seguiu apoiando o projeto social mesmo após o período obrigatório, devido à dificuldade da associação de bairro em assumir a gestão. Empresários da região também colaboram com recursos e apoio, e o projeto atende mais de 100 famílias por mês, com ações como festas e atividades para crianças.

Ao longo da conversa, Matheus combinou números, bastidores e relatos pessoais para desenhar o cenário atual da habitação de interesse social em Rio Preto. O quadro final revela avanços pontuais – como as 400 unidades em construção, a atualização do cadastro habitacional e a expansão de programas próprios -, mas também uma fila ainda longa de famílias à espera de moradia. A promessa para 2026 é de mais recursos, novos projetos e uma agenda habitacional cada vez mais entrelaçada com o jogo político local e federal.

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