PODCAST – Colégio cívico-militar em Rio Preto aposta em disciplina, liderança e rotina em tempo integral para formar alunos para o vestibular e a vida adulta

Rodrigo Lima

O modelo de escola cívico-militar, alvo de debates em todo o país, ganha contornos bem concretos em São José do Rio Preto. No Colégio Cívico-Militar (CCM) do município, disciplina, liderança e rotina em período integral são apresentados não apenas como marcas de um projeto pedagógico, mas como ferramentas para atravessar duas fronteiras decisivas na vida dos adolescentes: o vestibular e a entrada na vida adulta.

Em participação no Podcast Diário do Rodrigo Lima, a professora Ana Paula Vidotto, docente de redação e literatura, e as alunas Sofia de Aguiar e Nicole Marques, do 3º ano do ensino médio, detalharam o que muda na prática em relação às escolas tradicionais — e como o modelo influencia desempenho acadêmico, escolhas de carreira e amadurecimento pessoal.

Ansiedade, vestibular e “rito de passagem”

Na reta final do ensino médio, o calendário dos alunos é ditado por siglas como Enem, Unesp e demais vestibulares. Para Ana Paula, a etapa é um verdadeiro rito de passagem.

“O período de vestibular é sempre muito complexo para os alunos, principalmente os que estão finalizando o ensino médio”, afirmou. A professora lembra que não é apenas o Enem que pesa na balança: provas de universidades estaduais e federais se somam e “exacerbam” a ansiedade.

Ela conta que trabalha com vestibulandos há mais de três décadas e insiste em desmistificar o exame, sem minimizar o peso da prova. Orienta técnicas de resolução, ordem de abordagem das questões e, sobretudo, lembra que desespero não resolve. “O primeiro dia do Enem é uma prova de resistência física e de leitura”, resume, ao comentar o desafio de uma geração que, segundo ela, lê pouco e tende a ter dificuldade de interpretação de textos longos.

A aluna Sofia, 17 anos, também enxerga a prova como decisiva, mas destaca que parte da segurança vem do preparo acumulado. Quer cursar medicina e admite que a ansiedade é inevitável, mas não necessariamente paralisante. “Se você estudou, precisa confiar que é capaz de fazer a prova”, diz. Caso não passe de primeira, já projeta cursinho e afirma que seguirá na área de ciências biológicas, que “é onde se diverte estudando”.

O que diferencia o colégio cívico-militar

Se no conteúdo programático o CCM segue a Base Nacional Comum, o diferencial, segundo a professora, está no conjunto de práticas e na presença do corpo militar na rotina escolar. “O ensino é idêntico ao das outras escolas no conteúdo, inclusive preparando para os vestibulares. O que muda é a parte de liderança, que é dada pelo corpo militar”, afirma Ana Paula.

Militares atuam na formação de liderança de turmas, na organização da chamada “cadeia de comando” estudantil e na condução de formações diárias em torno da bandeira. A ideia, segundo a escola, é que os jovens aprendam a liderar grupos, habilidade exigida em praticamente qualquer área profissional.

Outro diferencial é o convênio com o Instituto Militar do Novo México, nos Estados Unidos, que permite intercâmbios. Para famílias que pensam em experiências internacionais, a parceria é apresentada como um “plus” no projeto pedagógico.

Adaptação à farda e à rotina integral

A transição de uma escola comum para um ambiente cívico-militar, com uniforme rigoroso e rotina mais rígida, não é simples — e as alunas não romantizam essa etapa.

Sofia entrou no colégio em 2022 e conta que o início foi um choque. “A gente vem de uma escola em que não é uniformizado, usa o tênis que quer, a roupa que quer. No CCM, tem que usar a farda e não pode errar”, relata. A fase inicial, diz, foi “bem complicada”.

Com o tempo, porém, passou a enxergar ganhos objetivos. Segundo ela, o fato de todos estarem padronizados reduz a pressão por aparência e consumo. “Ali a gente é diferente pelo que é, não pelo que veste ou pelo que tem”, resume.

A rotina é em tempo integral. Os alunos chegam por volta das 7h, participam da formação e do momento cívico com a bandeira, seguem para três aulas, fazem lanche, têm mais duas aulas e vão para o almoço. Após um intervalo de integração entre os colegas, retornam para mais blocos de aula, com outro lanche no meio da tarde, encerrando o dia entre 16h e 17h, de segunda a quinta. Às sextas, a saída é antecipada.

“Passamos o dia todo na escola. A convivência é intensa e as amizades acabam ficando tão fortes quanto, ou mais,  do que as relações de casa”, diz Sofia.

Disciplina, organização e soft skills

Mais do que o uniforme e a rotina, o discurso das alunas reforça a ideia de que a disciplina é tratada como valor transversal. “Disciplina não é só uma farda, é algo que entra em tudo, inclusive no estudo”, afirma Sofia.

No CCM, o desempenho acadêmico é combinado com critérios de mérito para definir a posição dos alunos na cadeia de liderança. Quem soma boa nota intelectual com boa nota de comportamento pode ocupar posições de comando entre os colegas. Isso, diz a estudante, gera uma “competição saudável” por desempenho e organização.

A professora Ana Paula destaca que esse ambiente é usado para desenvolver as chamadas soft skills — habilidades socioemocionais, como liderança, comunicação, capacidade de falar em público e de lidar com pressão. Há, por exemplo, veteranos designados como “líderes de indivíduo” para acompanhar estudantes novatos, tanto na adaptação ao uniforme quanto nas dificuldades de aprendizado.

Nada é imposto de imediato, sustenta a docente. “O aluno só passa a usar o uniforme depois que entende o significado daquele símbolo. Há uma cerimônia específica para a entrega do primeiro uniforme, que marca esse compromisso”, explica.

De adolescente rebelde a “quase adulta”

Quem traduz a experiência em termos de transformação pessoal é Nicole Marques, aluna do 3º ano e integrante do Grêmio de Comunicação do colégio. Ela também entrou em 2022, no início do projeto em Rio Preto.

“Eu cheguei lá uma adolescente rebelde e estou saindo quase adulta”, afirma. Para ela, o colégio ajudou a amadurecer, a organizar a própria rotina e a encarar a vida após o ensino médio. “Agora vou andar com meus próprios pés. É diferente ter o apoio da escola todos os dias e depois sair para o mundo”, diz.

Nicole conta que, assim como muitos colegas, resistiu ao modelo no começo, mas hoje vê saldo positivo. Aponta como diferencial a exposição frequente a situações que exigem responsabilidade: recepção de autoridades, eventos internos, participação em grêmios e representações estudantis. Tudo isso, afirma, funciona como um laboratório controlado para enfrentar desafios maiores no futuro.

Porte pequeno, portas abertas

Apesar da visibilidade crescente, o Colégio Cívico-Militar de Rio Preto ainda é uma escola de porte relativamente pequeno: cerca de 200 alunos, segundo a professora. A unidade funciona em prédio localizado na região central da cidade, na rua General Lisséri, em imóvel que abrigou órgãos públicos estaduais no passado.

O colégio, diz Ana Paula, está aberto a visitações de famílias interessadas, sem necessidade rígida de agendamento. “Das 6h30 às 19h sempre há alguém para orientar, mostrar o espaço, explicar sobre material e funcionamento. Estamos passando por reformas, mas seguimos à disposição”, afirma.

Quanto ao perfil desejado, a professora é direta: “Buscamos um aluno que queira estudar, que queira se desenvolver e que tenha disposição para liderança – seja na saúde, na política, na pesquisa ou em qualquer outra área”. As habilidades técnicas, argumenta, podem ser desenvolvidas em diferentes escolas; o diferencial do CCM, afirma, está na oportunidade estruturada de trabalhar atitudes, responsabilidade e protagonismo.

Escola como catalisador

Ao final da entrevista, a professora e alunas convergem em uma ideia central: o colégio não elimina tropeços da vida, mas tenta antecipar e organizar parte desse aprendizado dentro da escola.

“Sofrer pressão, falar em público, errar e aprender faz parte. A diferença é que, ali dentro, eles têm um ambiente acompanhado para treinar isso”, diz Ana Paula.

Sofia, prestes a encarar o vestibular e o adeus à escola, sintetiza o saldo: “Entrei de um jeito e vou sair de outro. Muito mais madura do que quando cheguei”. Nicole, na mesma direção, vê o colégio como ponte entre dois mundos: “Lá dentro a gente cresce. Aqui fora, a vida continua – mas a gente já não é mais a mesma pessoa”.

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