A pandemia de Covid-19 interrompeu shows, paralisou obras e empurrou milhares de trabalhadores para uma espécie de “plano B” improvisado. Para o casal João Pedro Faria Palhares e Fabrícia Nascimento Silva, a guinada começou com hambúrgueres feitos na churrasqueira da família e terminou com um faturamento que eles próprios descrevem como impensável para quem iniciou “do zero”.
Fundadores e gestores da BB Onça – marca que ganhou notoriedade regional no interior paulista -, João relatou ao Podcast Diário do Rodrigo Lima que o negócio nasceu em dezembro de 2020, quando a renda do casal secou: João Pedro, então integrante de uma dupla sertaneja, enquando que Fabrícia, atuava como engenheira civil. Atualmente, o faturamento da empresa é de aproximadamente R$ 7 milhões ao ano.
O primeiro “ponto comercial” foi o fundo da casa dos pais de Fabrícia, José Pedro Silva e Jane Nascimento. “Os amigos começaram a sugerir que a gente poderia ter alguma renda com isso”, afirmou João Pedro no programa. As vendas iniciais, segundo ele, foram para amigos e familiares – e as entregas, feitas com ajuda desse mesmo círculo, num formato doméstico típico do período de restrição sanitária.
A empresa, disse o empreendedor, manteve o perfil familiar mesmo depois de ganhar escala. “É que nem a grande família: é briga, é trupelo o dia inteiro, mas estamos convivendo e tendo o mesmo propósito”, afirmou, ao citar a participação da esposa e dos sogros na operação.
Do “básico bem feito” à escala
No relato ao podcast, João Pedro descreveu 2020 como o momento em que a crise virou oportunidade. “Se a gente está falando sobre isso em 2020, quando nós inauguramos, a gente estava quebrado na raiz e tinha pandemia – e a gente se serviu disso como oportunidade”, disse. A mensagem que ele diz repetir para quem teme empreender em períodos turbulentos é pragmática: “Faça o básico bem feito, mas não deixe de acreditar”.
A fala aparece também como resposta a um temor recorrente no comércio e nos serviços: o impacto de anos de incerteza econômica. Questionado sobre o “ano da verdade” – com Copa do Mundo e eleições, fatores que costumam redesenhar consumo e atenção do público – João Pedro relativizou: “Se a gente for pegar na história, todos os anos são difíceis. Tudo depende da sua situação e do seu posicionamento”.
Investimento da família e caixa apertado
Uma parte do depoimento se detém no custo – emocional e financeiro – de trocar a produção caseira por um ponto físico. João Pedro contou que o casal comprou o ponto por R$ 34 mil, com entrada de R$ 20 mil colocada pela sogra, que teria investido o que tinha à época. O restante, disse, foi parcelado em cheques mensais pagos “com a operação” – uma disciplina imposta pela família para evitar que o negócio dependesse de capital externo.
O início na nova cidade frustrou expectativas. O empreendedor relatou que imaginou vender 100 hambúrgueres por dia, mas a realidade foi bem menor: “A gente vendia 5, 6 hambúrgueres no dia”. O barulho de novos pedidos no aplicativo de entrega era comemorado como um marco doméstico, reforçando a narrativa de crescimento construído em degraus pequenos.
Hoje, afirma, a empresa bate 900 hambúrgueres em um dia – número citado como retrato da mudança de escala, sem que, segundo ele, a motivação do time tenha se alterado. “A felicidade é a mesma quando bate 10 e quando bate 900”, disse.
“O lado mágico” não mostra a pressão
Ao contrário do discurso celebratório comum em histórias de empreendedorismo, João Pedro afirmou que 2025 foi um ano de “readequação” e “reformulação”, em razão de investimentos que apertaram o caixa. Segundo ele, houve um momento em que a empresa precisou rever comportamento financeiro e processos para não “ir para a ruína” em poucos meses – apesar de, aos olhos de quem estava de fora, ser um negócio “voando”.
“Empreender é sofrer o risco todo dia”, afirmou. “É você ter peito para falar; é chorar dentro de um quarto e sair e pensar com a razão.” Ele disse que falou publicamente sobre esse trecho da trajetória pela primeira vez no programa e criticou o modo como o mercado costuma vender apenas “o lado mágico” do empreendedorismo.
A reorganização passou, segundo o relato, por gestão de compras e redução de desperdícios em escala – “olhar para os dois centavos, para os três centavos”, descreveu, ao explicar que pequenas variações se tornam relevantes quando o volume é alto.
Receita do produto e “essência” da marca
O entrevistado também detalhou a composição do blend de carne que, segundo ele, se tornou uma assinatura da casa: miolo de acém e fraldinha, com ajuste de gordura do peito quando necessário, mantendo uma faixa de 18% a 22% de gordura. O hambúrguer padrão citado por ele tem 180 gramas. No discurso, porém, o produto é apresentado como parte – e não o todo – do valor percebido pelo cliente.
“A gente vende disposição de alegria, vende momentos, vende memória”, afirmou. Em outro trecho, reforçou: “Produto bom tem no mundo inteiro; o que muda é a essência da marca”.
Expansão e risco de “descredibilizar” a marca
A ambição declarada é abrir dez lojas até 2028, com uma combinação de unidades próprias e franquias. João Pedro disse que o planejamento de expansão começou em 2023, com padronização interna de processos, e ganhou consultoria externa mais recentemente, para reduzir risco e assegurar consistência.
O cuidado, segundo ele, é evitar uma expansão rápida demais que possa corroer confiança do consumidor. “Não dá para errar. Abrir e fechar depois é desconfortável para a marca”, disse, ao citar que o público raramente enxerga as variáveis de custo e logística por trás de um encerramento.
Ao falar sobre concorrência, o empreendedor posicionou grandes redes como referência operacional – pela logística e por investimentos em pesquisa – e afirmou que disputa atenção com qualquer alternativa de refeição fora de casa, de hambúrguerias artesanais a redes de pizza. Para ele, o desafio não é apenas vender o produto, mas deslocar uma escolha já feita pelo consumidor naquele dia.
Ao final, a narrativa que o casal constrói – a partir de Ibirá, cidade de pouco mais de 11 mil habitantes – resume uma trajetória comum na pandemia, mas incomum no desfecho: a transformação de um improviso doméstico em empresa com faturamento milionário e projeto de expansão regional, sustentada, segundo seus fundadores, por um tripé repetido ao longo do episódio: consistência, processo e credibilidade.
