A região de São José do Rio Preto consolidou-se, nos últimos anos, como um dos principais polos de segurança pública do interior paulista, segundo avaliação do coronel Paulo Henrique Beltrame, comandante do Comando de Policiamento do Interior-5 (CPI-5). Em entrevista ao podcast Diário do Rodrigo Lima, o oficial atribuiu o cenário à combinação entre tecnologia, estratégia e atuação coordenada das forças de segurança.
Na leitura do comandante, a redução consistente dos indicadores criminais e a resposta rápida às ocorrências contribuíram para criar um ambiente de dissuasão. A percepção, segundo ele, é de que o chamado “DDD 017” passou a representar um território menos permissivo à atuação do crime organizado.
A estratégia central, afirma, está baseada no policiamento orientado por dados. O modelo, descrito como preditivo, utiliza análise estatística e inteligência policial para identificar padrões e antecipar possíveis ocorrências. A lógica rompe com o patrulhamento aleatório e prioriza a presença policial em pontos considerados sensíveis.
Esse tipo de atuação já teria evitado crimes de maior potencial ofensivo. Em um dos exemplos citados, uma ação na região da Vila Ernanis impediu um ataque a empresa de transporte de valores antes que fosse executado, mesmo com suspeitos fortemente armados.
Para Beltrame, a inteligência policial é o elemento central da operação. Ele define a atividade como o principal mecanismo para evitar que o crime aconteça, e não apenas para reagir a ele.
Tecnologia e controle
O comandante também abordou o uso de câmeras corporais por policiais militares, classificando o recurso como inevitável dentro do processo de modernização da segurança pública. Segundo ele, a ferramenta tende a reforçar a transparência e a proteger tanto a atuação policial quanto a população.
Ele pondera, no entanto, que registros isolados de ocorrências podem não refletir a totalidade dos fatos, especialmente em situações de alta complexidade, nas quais decisões são tomadas sob pressão e dentro de protocolos legais rigorosos.
A discussão sobre percepção de segurança aparece como um dos principais desafios atuais. Ainda que os índices criminais estejam em queda, o sentimento da população nem sempre acompanha os dados oficiais, o que exige comunicação e presença institucional mais efetivas.
Grandes eventos e operação integrada
A capacidade operacional do CPI-5 foi recentemente testada em eventos de grande porte na região, como o show da banda Guns N’ Roses e partidas da Libertadores em Mirassol. Segundo o comandante, o planejamento envolveu ações preventivas de alto nível, incluindo varreduras com cães farejadores e equipes especializadas.
O resultado, de acordo com ele, foi um índice praticamente nulo de ocorrências graves, o que reforça a tese de que a antecipação de riscos é determinante para o sucesso de operações desse porte.
Apesar do cenário considerado positivo, o tráfico de drogas segue como principal preocupação. A região é monitorada como parte da chamada “rota caipira”, utilizada para o escoamento de entorpecentes no interior do país. O impacto desse tipo de crime, afirma, se desdobra em outras ocorrências, como furtos e roubos.
Comando e mudança histórica
Durante a entrevista, Beltrame destacou como marco institucional a indicação da coronel Glaucia Anselmo Cavali para o comando geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo. A nomeação é considerada histórica por ser a primeira vez que uma mulher assume o posto em quase dois séculos de existência da corporação.
O comandante do CPI-5 ressaltou o perfil da nova chefe da PM, apontando sua trajetória como consistente e marcada por desempenho destacado em diferentes funções. Ele também enfatizou a proximidade entre os comandos regional e estadual, com interlocução frequente para alinhamento de diretrizes operacionais.
A avaliação é de que a mudança reforça a integração institucional e contribui para uma condução mais uniforme das políticas de segurança no estado.
Trajetória e formação
Filho de um cabo da Polícia Militar, Beltrame ingressou na corporação em 1991 como soldado. Posteriormente, formou-se na Academia do Barro Branco, principal centro de formação de oficiais da PM paulista.
Ao longo da carreira, participou da criação da Companhia de Ações Especiais (CAEP), estrutura que deu origem ao atual Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP), unidade voltada ao enfrentamento de crimes de maior complexidade, como ataques a bancos e ações do chamado “novo cangaço”.
A experiência acumulada em operações desse tipo, segundo ele, ajudou a moldar a atual doutrina de atuação baseada em inteligência e resposta rápida.
Dimensão social da atividade policial
O comandante também destacou o papel social desempenhado pela corporação, especialmente em situações de crise. Ele citou a atuação da Polícia Militar paulista nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, onde coordenou uma missão de dois meses com foco em resgates e apoio humanitário.
Segundo o relato, policiais atuaram não apenas em operações de salvamento, mas também na distribuição de alimentos e no enfrentamento de tentativas de saque a donativos.
A experiência, afirma, evidencia que a função policial vai além da repressão ao crime e envolve também ações de proteção social em cenários extremos.
Desafios estruturais
Questionado sobre problemas urbanos, como a população em situação de rua e questões de saúde mental, Beltrame afirmou que a solução exige articulação entre diferentes áreas do poder público. Para ele, a segurança pública não pode ser tratada de forma isolada, sendo necessária a integração com políticas de assistência social e saúde.
A avaliação final é de que o modelo adotado na região de Rio Preto se sustenta em três pilares: inteligência, integração e presença operacional. Para o comandante, esse conjunto tem sido determinante para consolidar a percepção de risco entre criminosos e reforçar a sensação de segurança entre moradores.
