A avaliação do secretário de Trânsito, Ederson Pinha, sobre a mobilidade urbana na cidade é direta: o município carrega o estigma de ter um dos trânsitos mais violentos entre cidades de porte semelhante – e a mudança desse cenário depende tanto do poder público quanto do comportamento dos motoristas. “O trânsito de Rio Preto é violento”, disse Pinha.
A declaração foi feita durante entrevista ao Podcast Diário do Rodrigo Lima, que vai ao ar em breve. Logo no início da conversa, o secretário reconhece que a percepção negativa não é infundada. “Rio Preto tem esse estigma, e de fato o trânsito é complicado”, afirmou.
Segundo ele, o diagnóstico encontrado ao assumir a pasta apontou para um cenário de imprudência generalizada, com desrespeito frequente às normas de circulação. “Via de regra, os motoristas não respeitam adequadamente a legislação. Há muita imprudência e negligência”, disse.
Alta presença de motocicletas agrava riscos
Um dos fatores que contribuem para o quadro é a composição da frota. De acordo com o secretário, mais de um quarto dos veículos em circulação na cidade são motocicletas, o que eleva significativamente o risco de acidentes graves.
“A motocicleta, pela própria natureza, expõe mais o condutor. E quando há acidente, os danos físicos são muito maiores”, afirmou.
Ele acrescenta que o crescimento do número de entregadores e trabalhadores por aplicativo intensificou a pressão sobre o trânsito, muitas vezes associada à pressa e ao desrespeito à sinalização. “Vira um ‘vale tudo’, com avanço de sinal, contramão e circulação em locais proibidos”, disse.
Imprudência custa caro
A entrevista também abordou um problema recorrente: colisões contra semáforos. Segundo Pinha, a maioria dos casos está diretamente ligada à imprudência.
“Mais de 90% das ocorrências são por erro do motorista”, afirmou.
Além do risco à segurança, os danos financeiros são elevados. Um conjunto semafórico completo pode chegar a R$ 150 mil, valor posteriormente cobrado do responsável pelo acidente.
Educação no trânsito e tecnologia como resposta
Para enfrentar o cenário, a gestão municipal aposta em um conjunto de medidas que incluem educação, fiscalização e modernização tecnológica.
O secretário destaca a ampliação das ações educativas, em parceria com o Detran, e o fortalecimento de campanhas como o Maio Amarelo. “Não é uma mudança que acontece da noite para o dia. É um processo contínuo”, afirmou.
Outro eixo é o projeto “Smart Rio Preto”, que prevê a modernização do parque semafórico com sistemas inteligentes capazes de ajustar o tempo dos sinais conforme o fluxo de veículos, além da implementação de “onda verde” em corredores estratégicos.
“Indústria da multa” e mudança de abordagem
Questionado sobre a existência de uma suposta “indústria da multa”, Pinha afirma que a atual gestão busca reposicionar o papel da fiscalização.
Segundo ele, radares foram remanejados com base em critérios técnicos, priorizando pontos com maior risco de acidentes. “O caráter da multa deve ser educativo. O objetivo é reduzir acidentes, não arrecadar”, disse.
Um exemplo citado foi a retirada de um radar considerado “predatório” e sua substituição por uma lombada, com resultados mais eficazes na redução de velocidade.
Calçadão divide opiniões e será fechado para veículos
Outro tema central da entrevista é o futuro do calçadão da região central, especialmente no entorno da Catedral. A possibilidade de reabertura para veículos divide opiniões entre comerciantes, pedestres e especialistas em mobilidade urbana.
O secretário afirma que a decisão ainda está em estudo e será baseada em diálogo com a sociedade e entidades representativas. “Estamos ouvindo todos os lados. É um tema sensível, que envolve mobilidade, comércio e segurança”, indicou.
Ele ressalta que a gestão tem mantido canais abertos com representantes do comércio e lideranças locais para avaliar impactos e alternativas.
Apesar das ações estruturais, Pinha enfatiza que a transformação do trânsito depende de mudança cultural. Segundo ele, motoristas, motociclistas e pedestres compartilham responsabilidades.
“O pedestre precisa entender que é o mais vulnerável, mas também precisa se fazer visível. E o motorista precisa respeitar. Sem isso, não há política pública que resolva”, afirmou.
A meta da gestão, segundo o secretário, é reduzir acidentes e melhorar a fluidez viária – um objetivo que, admite, exige tempo, investimento e, sobretudo, conscientização coletiva.
