O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 redesenhou o mapa político de São José do Rio Preto e já produz reflexos nas articulações para a disputa municipal de 2028. Essa é a avaliação do advogado, professor e analista político Henrique Casseb, que participou do podcast Diário do Rodrigo Lima para analisar os números das urnas e os possíveis desdobramentos da eleição.
Na entrevista, Casseb afirmou que o aumento da representação parlamentar de Rio Preto fortalece a cidade politicamente, mas ponderou que o resultado da eleição presidencial, que será decidida no segundo turno, também deverá influenciar diretamente o cenário municipal daqui a dois anos.
Rio Preto saiu das urnas com quatro deputados estaduais e três federais ligados à cidade. Foram eleitos para a Assembleia Legislativa Itamar Borges (MDB), Danilo Campetti (Republicanos), Valdomiro Lopes (PSB) e João Paulo Rillo (PT). Para a Câmara dos Deputados, conquistaram mandato Luiz Carlos Motta (PL), Paulo Bilynskyj (PL) e Edinho Araújo (PRD).
O número representa avanço em relação à eleição de 2022, quando a cidade havia elegido dois deputados estaduais e um federal. Para Casseb, uma bancada maior amplia a capacidade de interlocução da região com os governos estadual e federal.
A eleição também produziu números expressivos dentro do município. Rillo foi o candidato a deputado estadual mais votado pelos rio-pretenses, com 41.045 votos. Na sequência apareceram Valdomiro, com 30.005; Campetti, com 26.049; e Itamar, com 24.561.
Na disputa para a Câmara, o mais votado em Rio Preto foi Lucas Pavanato (PL), com 36.581 votos, seguido pelo ex-prefeito Edinho Araújo, que recebeu 35.436.
Bolsonarismo e a votação presidencial
Uma das principais análises feitas no podcast foi sobre o desempenho da direita na eleição presidencial em Rio Preto.
No primeiro turno, realizado no domingo (4), Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 156.807 votos na cidade, equivalentes a 62,46% dos válidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve 71.275 votos, ou 28,39%. Augusto Cury (Avante) apareceu na sequência, com 8.735 votos e 3,48%.
Questionado sobre a diferença de mais de 85 mil votos entre Flávio e Lula no município, Casseb apontou dois fatores.
“O bolsonarismo é muito consolidado em Rio Preto”, afirmou.
Segundo o analista, essa identificação do eleitorado local com o campo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou intensidade a partir da eleição presidencial de 2018 e também ajudaria a explicar, na avaliação dele, a vitória de Coronel Fábio Cândido (PL) para a Prefeitura em 2024.
O segundo fator apontado por Casseb foi a mudança do ambiente político em relação à eleição presidencial anterior. Para ele, parte do discurso utilizado por Lula naquela disputa perdeu força após quatro anos de governo. Trata-se de uma interpretação do entrevistado sobre o comportamento do eleitor rio-pretense, e não de uma conclusão baseada em pesquisa específica apresentada durante o programa.
Apesar da força do voto presidencial da direita na cidade, Rodrigo Lima questionou por que candidatos locais identificados com o bolsonarismo não necessariamente repetem, nas eleições proporcionais, desempenho semelhante ao obtido por candidatos nacionais.
Casseb afirmou que o fenômeno está relacionado ao caráter nacional do movimento.
Na avaliação dele, eleitores identificados com o bolsonarismo tendem, em eleições estaduais e federais, a direcionar votos para candidatos com maior exposição no Estado ou no país. Um exemplo foi Pavanato, que recebeu 36,5 mil votos somente em Rio Preto. Já lideranças locais poderiam ter vantagem maior numa eleição municipal, na qual a disputa se concentra nos nomes da própria cidade.
Resultado nacional entra na equação de 2028
Flávio Bolsonaro e Lula disputarão o segundo turno da eleição presidencial em 25 de outubro. Nenhum dos dois alcançou maioria absoluta dos votos válidos na primeira rodada.
Para Casseb, o ocupante do Palácio do Planalto a partir de 2027 poderá se transformar em um ativo político importante para aliados que pretendam disputar a Prefeitura de Rio Preto em 2028.
Ele citou dois cenários.
De um lado, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia fortalecer politicamente Coronel Fábio Cândido numa tentativa de reeleição, especialmente pela identificação partidária e política entre os dois.
No cenário oposto descrito pelo entrevistado, uma vitória de Lula poderia oferecer a João Paulo Rillo, eleito deputado estadual, a possibilidade de se apresentar como interlocutor do governo federal na região caso seja escolhido pelo PT para disputar a Prefeitura.
Casseb ressaltou que essas possibilidades dependem do resultado presidencial e da configuração partidária dos próximos dois anos.
PT e a dificuldade de transformar governo federal em força local
Durante a conversa, Casseb também fez uma análise histórica da atuação do PT em Rio Preto.
O partido nunca administrou o município, embora tenha construído períodos de crescimento eleitoral na cidade. O analista recordou momentos de maior presença petista na Câmara e avaliou que divisões internas impediram a legenda de aproveitar ciclos favoráveis.
Ele também citou a eleição municipal de 2012, quando Rillo chegou ao segundo turno da disputa pela Prefeitura.
Para Casseb, um dos problemas históricos do PT local foi não estabelecer de forma permanente uma figura reconhecida como interlocutora direta do governo federal em Rio Preto nos períodos em que o partido comandou a presidência.
Na avaliação dele, investimentos federais realizados no município – em áreas como habitação, saneamento e infraestrutura – não necessariamente se converteram em dividendos eleitorais para candidaturas petistas locais.
A eventual eleição de Lula, afirmou, poderia abrir uma oportunidade para Rillo tentar ocupar esse espaço político durante seu mandato na Assembleia.
Rillo deixa Câmara fortalecido pelas urnas
Casseb avaliou que a votação de João Paulo Rillo está diretamente relacionada ao protagonismo que o petista construiu como opositor do governo municipal na Câmara.
Rillo recebeu 41.045 votos somente em Rio Preto e terminou a eleição com 72.486 votos no Estado.
Para o analista, a mudança para a Assembleia não deverá significar afastamento da política municipal.
Ele considera que, caso Rillo tenha intenção de disputar a Prefeitura em 2028, precisará manter presença constante em Rio Preto e continuar participando das discussões sobre a administração municipal.
Durante o podcast, Casseb disse ainda acreditar que a saída de Rillo da Câmara tende a reduzir a pressão direta exercida sobre o governo no Legislativo, embora o novo mandato estadual ofereça ao petista uma estrutura política mais ampla.
Prefeito continua no centro do jogo
Apesar do crescimento eleitoral de adversários e possíveis concorrentes, Casseb alertou que qualquer projeção sobre 2028 precisa considerar o peso político da Prefeitura.
“Não podemos menosprezar a cadeira de prefeito”, afirmou durante a entrevista.
Na avaliação do analista, administrar uma cidade do porte de Rio Preto oferece ao ocupante do Executivo capacidade de entregar obras, serviços e políticas públicas que podem alterar a percepção do eleitor ao longo do mandato.
Casseb afirmou que Coronel Fábio enfrenta desgaste político, na avaliação dele, mas destacou que ainda há aproximadamente dois anos até a próxima eleição municipal e que esse período pode alterar o cenário.
Entre as iniciativas que, segundo ele, podem influenciar a avaliação administrativa estão grandes projetos anunciados pela Prefeitura, especialmente o Smart Rio Preto, além do programa de recapeamento.
O Smart Rio Preto prevê cerca de 3 mil câmeras inteligentes, mais de 73 mil pontos de iluminação em LED, modernização de mais de 300 semáforos e criação de um Centro de Controle Operacional, dentro de uma PPP de 30 anos.
O governo municipal também colocou em execução um pacote de R$ 97 milhões para recuperação da malha viária, cujo primeiro trecho começou pela avenida Clóvis Oger.
Para Casseb, a percepção do eleitor sobre uma administração pode mudar rapidamente caso grandes projetos saiam do papel e melhorias sejam sentidas no cotidiano.
Composição política
O analista também avaliou que Coronel Fábio cometeu erros políticos na fase inicial do governo ao montar o secretariado sem dar, na opinião dele, peso suficiente à composição da Câmara Municipal.
Casseb afirmou, porém, enxergar uma mudança de postura na administração.
Ele citou como exemplo a chegada da empresária Cláudia Bassitt à Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo. Bassitt foi nomeada para o cargo em junho e assumiu a pasta com a missão declarada de ampliar a interlocução com o setor produtivo e trabalhar na atração de investimentos.
Para o entrevistado, mudanças desse tipo indicam uma tentativa de ampliar a sustentação política e administrativa do governo.
Uma eleição com vários nomes competitivos
A discussão sobre 2028 também incluiu os nomes que saíram fortalecidos das urnas.
Além do prefeito Coronel Fábio, que poderá buscar a reeleição, Casseb citou políticos como Itamar Borges, João Paulo Rillo, Valdomiro Lopes, Edinho Araújo e Danilo Campetti, além de outros nomes que poderão entrar na disputa dependendo das articulações partidárias.
O analista ressaltou, no entanto, que mandato conquistado em 2026 não significa necessariamente candidatura à Prefeitura.
Para ele, os próximos dois anos serão marcados por decisões individuais, reorganização dos partidos, alianças e avaliação do desempenho do governo municipal.
Casseb citou ainda o impacto das redes sociais na construção de novas lideranças. Segundo ele, a internet reduziu a dependência que candidatos tinham de rádio e televisão para alcançar visibilidade e passou a permitir o surgimento de nomes sem longa trajetória partidária ou mandato anterior.
Sete cadeiras e um novo tabuleiro
O dado concreto deixado pelas urnas é que Rio Preto chegará a 2027 com representação maior em São Paulo e em Brasília.
Itamar Borges obteve 159.058 votos no Estado; Danilo Campetti, 119.904; Valdomiro Lopes, 86.893; e João Paulo Rillo, 72.486. Entre os federais da região, Motta teve 112.854 votos; Paulo Bilynskyj, 90.363; e Edinho Araújo, 54.443.
A partir desse resultado, a disputa política local entra em nova fase.
Para Casseb, a composição do cenário de 2028 dependerá de uma combinação de fatores: desempenho do governo Coronel Fábio, capacidade dos deputados eleitos de manter presença em Rio Preto, rearranjo das forças de oposição e, principalmente, o resultado da eleição presidencial.
O 2º turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, portanto, não encerra apenas a disputa pelo Palácio do Planalto. Na avaliação do analista político, o resultado também poderá determinar quem chegará politicamente fortalecido – e com qual discurso – à próxima corrida pela Prefeitura de São José do Rio Preto.
