PODCAST – Enamed expõe disparidade na formação médica e acende alerta sobre impacto no SUS, diz diretor da Famerp

Rodrigo Lima

O diretor-geral da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), Helencar Ignácio, afirmou em entrevista ao Podcast Diário do Rodrigo Lima que o Enamed (Exame Nacional de Avaliação Médica) se tornou um “espelho mais real” da qualidade do ensino médico no país e que os resultados recentes reforçam um risco imediato: a entrada no mercado de milhares de profissionais com baixa proficiência, sobretudo em serviços de porta de entrada do SUS, como emergências e unidades básicas.

A conversa ocorreu após a divulgação do exame que, neste formato, passou a exigir a participação obrigatória de todos os estudantes concluintes, uma mudança que, segundo o diretor, corrige uma distorção antiga – quando algumas instituições enviavam apenas seus melhores alunos para a prova, o que mascarava o desempenho médio do curso.

Na entrevista, Ignácio também comemorou a nota máxima obtida pela Famerp – citada como conceito 5 no episódio – e atribuiu o resultado a um conjunto de fatores: corpo docente altamente qualificado, seleção competitiva de estudantes, estrutura acadêmica e tradição de pesquisa. “Não é fruto de uma gestão só”, disse, ao ressaltar continuidade de trabalho de diretorias anteriores.

“Não é fator limitante”: o problema, segundo o diretor, é o que acontece depois da prova.

O ponto central da fala do diretor, porém, foi a avaliação crítica do sistema: o Enamed, do jeito que está, mede – mas não impede.

Ignácio defendeu que o exame é um começo, mas argumentou que as consequências para cursos e formandos deveriam ser mais rigorosas para proteger a população. Na avaliação dele, médicos oriundos de cursos com desempenho muito baixo não têm sua atuação limitada automaticamente, o que levaria ao ingresso de recém-formados no atendimento direto ao público.

Ele associou esse efeito principalmente ao SUS, por uma razão estrutural: uma parcela relevante dos médicos formados não faz residência, indo trabalhar, com frequência, em pronto-atendimentos e UBS. Nesse cenário, afirmou, a população pode sentir o reflexo por meio de falhas e atrasos diagnósticos e também de um efeito indireto: o aumento de pedidos de exames e procedimentos desnecessários, que ele disse “onerar demais o sistema”, consumindo recursos já escassos.

Erro de diagnóstico, demora e custo: impactos esperados na ponta

Questionado sobre o que mais preocupa, o diretor listou três frentes de impacto de um médico mal preparado:

Qualidade assistencial – com risco maior de falhas, especialmente em situações de emergência e triagem clínica;

Tempo e eficiência do cuidado – com diagnósticos tardios e condutas pouco resolutivas;

Pressão sobre orçamento – ao estimular solicitação excessiva de exames, elevando custos e filas.

Para ele, o problema não seria apenas individual, mas sistêmico: piora o atendimento e desloca recursos que poderiam ser aplicados diretamente na assistência.

Expansão “indiscriminada” e predominância do setor privado nas notas mais baixas

Ignácio associou os maus resultados à “abertura indiscriminada” de faculdades de medicina nos últimos anos, com crescimento acelerado, majoritariamente no setor privado. No episódio, foram citados números de participação de centenas de escolas e uma proporção relevante de cursos com conceitos considerados insatisfatórios (notas 1 e 2).

O diretor argumentou que não há como formar bem sem requisitos mínimos, como hospital-escola, corpo docente qualificado e estrutura de pesquisa e pós-graduação. Sem isso, disse, o exame apenas escancara um processo que já vinha ocorrendo.

Ele também criticou a ideia de que abrir mais cursos, por si só, resolveria a desigualdade de distribuição de médicos no território nacional. Segundo o raciocínio apresentado, o perfil socioeconômico de grande parte dos estudantes de medicina privada – com mensalidades elevadas – reduz a probabilidade de fixação em áreas remotas, especialmente sem incentivos de carreira.

O que o Enamed deveria virar: modelo semelhante à OAB e punições mais duras

Ao ser provocado sobre justiça e evolução do exame, Ignácio afirmou que o Enamed tende a se aperfeiçoar e defendeu um caminho mais rígido, inspirado no exame da OAB: um mecanismo que proteja o paciente e pressione as escolas.

Na entrevista, ele sugeriu que o sistema poderia caminhar para algo como um “bacharel em medicina” para quem não atingisse um patamar mínimo, com novas oportunidades de exame após preparação, e sanções mais severas para instituições com desempenho repetidamente insuficiente.

“Avaliar só o aluno é fácil”, disse em síntese, defendendo que o processo deve também responsabilizar quem forma.

Transparência na divulgação entra no debate

O diretor ainda comentou, no episódio, a tentativa de questionamento judicial sobre a divulgação de resultados por entidades do setor privado – mencionada como exemplo de resistência à transparência. Para ele, a publicação dos dados é parte do serviço à sociedade: são profissionais que atuarão diretamente com vida e saúde, e o cidadão tem direito de saber.

Famerp: excelência acadêmica e revisão curricular

Na parte institucional, Ignácio listou como diferenciais da Famerp o alto grau de concorrência no ingresso, a qualificação do corpo docente e uma pós-graduação avaliada com notas elevadas em áreas da saúde, além da produção científica.

Ele afirmou que a escola está em processo de revisão curricular, com previsão de mudanças ainda em 2026, e que mantém exames e avaliações periódicas internas para monitorar desempenho discente – num esforço, segundo ele, de manter padrão elevado e corrigir rotas.

1 comentário em “PODCAST – Enamed expõe disparidade na formação médica e acende alerta sobre impacto no SUS, diz diretor da Famerp”

  1. Eu sempre pergunto ao meu médico onde ele se formou. Deveria ser uma praxe adotada por todos. Dependendo da resposta, jogo a receita fora e nem compro os remédios e marco outra consulta com outro médico!

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