Atleta rio-pretense começou a patinar aos 7 anos, durante a pandemia, treina cerca de três horas por dia e conquistou ouro no Park e bronze no Street no Mundial do Paraguai
Aos 13 anos, Joana Caroline Tavares Melo já aprendeu que, antes de executar um mortal, é preciso conviver com o medo. Para a rio-pretense conhecida como Joaninha, a solução encontrada foi simples de explicar e difícil de executar: fazer a manobra mesmo assim.
Foi dessa forma, acumulando quedas, treinos e viagens para encontrar pistas adequadas, que a adolescente de São José do Rio Preto chegou ao título mundial de Roller Freestyle.
Joaninha conquistou a medalha de ouro na categoria Park Júnior Feminino dos World Skate Games 2026, disputados em Assunção, no Paraguai. Na final, obteve 74,50 pontos. Ela ainda voltou da competição com uma segunda medalha, o bronze no Street.
Em entrevista ao podcast Diário do Rodrigo Lima, a atleta disse ainda tentar dimensionar a conquista.
“É uma sensação incrível”, afirmou. “Comecei por brincadeira e agora tenho esse título de campeã mundial.”
O resultado ganha outra dimensão quando se observa sua rotina de preparação.
Enquanto no Street os obstáculos são corrimãos, caixotes e outras estruturas mais próximas das encontradas na pista onde treina na cidade, o Park exige um bowl – estrutura funda e curva que permite ganhar velocidade para giros, saltos e mortais.
Rio Preto não oferece atualmente à atleta uma estrutura equivalente àquela utilizada nas grandes competições internacionais.
“Foi um desafio gigante”, disse Joaninha ao comentar a conquista. Segundo ela, a cidade não dispõe do tipo de pista em que disputou o título do Park.
Quando precisa aprimorar manobras nesse ambiente, a família viaja principalmente para São Paulo.
Os deslocamentos aumentam o custo de uma carreira que, apesar da idade da atleta, já tem características de alto rendimento.
“Os custos são muito altos”, afirmou. “Eu tenho que me dedicar mais nos treinos lá e tentar dar um jeito de conseguir treinar as manobras aqui.”
De um patins de brinquedo ao Mundial
A relação de Joaninha com o esporte começou durante a pandemia de Covid-19.
Ela tinha 7 anos e, inicialmente, usava patins apenas como diversão.
O equipamento de brinquedo foi substituído com o tempo pelo modelo utilizado no Street. Vieram os primeiros treinos, depois as competições e, pouco a pouco, um passatempo virou projeto esportivo.
“Quando comecei a me apaixonar pelo esporte e entrar nas competições, vi que era isso que queria para a minha vida”, afirmou.
Seis anos depois, a adolescente já acumula títulos estaduais e nacionais, experiência internacional e duas medalhas em um Mundial.
Em 2026, antes de competir no Paraguai, também foi vice-campeã da World Cup Roller Freestyle disputada na Itália.
O título mundial, porém, ocupava um espaço particular na lista de objetivos da atleta.
Joaninha contou que tinha dois grandes sonhos quando começou: disputar o Interclash, uma das principais competições da modalidade, e ser campeã mundial.
Os dois já foram cumpridos.
Três horas por dia
A aparência de brincadeira proporcionada pelas manobras esconde uma rotina disciplinada.
Joaninha calcula que permaneça, em média, três horas por dia na pista. Em períodos próximos às competições, o treinamento pode ocupar uma tarde inteira.
A preparação não se limita aos patins. Ela faz academia, fisioterapia e também pratica natação, além de buscar manter rotina de sono e alimentação compatíveis com o esforço físico.
“Eu treino bastante todos os dias. Tenho acompanhamento físico com academia, fisioterapia e sempre tento comer bem”, contou.
No Park, uma queda pode comprometer quase toda a volta.
A competição exige velocidade e fluidez. Ao cair dentro do bowl, o atleta perde o embalo necessário para chegar às rampas e executar as manobras seguintes.
Cada apresentação tem duas voltas de 50 segundos.
Joaninha explica que sua estratégia é combinar movimentos mais seguros com outros de maior dificuldade. Entre suas principais armas estão os mortais, além de giros como o 720 – duas rotações completas -, backflip e variações envolvendo giro de 360 graus.
Antes de entrar na pista, a sequência é discutida com o técnico.
No caso dela, o técnico está dentro de casa.
Pai, técnico e cinegrafista
O responsável por orientar Joaninha nas competições é o pai, Alexandre.
A função, porém, vai além.
“Minha família é meu videomaker, meu treinador, meu técnico, é tudo”, disse a atleta.
Alexandre começou a andar de patins depois da filha, principalmente para acompanhá-la. Assiste a vídeos de outros atletas, estuda movimentos e tenta traduzir as manobras para uma linguagem que ela consiga aplicar nos treinos.
A mãe também acompanha as viagens.
Foi preciso, segundo Joaninha, acostumar a família aos riscos de um esporte no qual a filha gira de cabeça para baixo a vários metros de velocidade.
A própria atleta diz que já sentiu medo de alguns movimentos.
O medo não desapareceu. A convivência com ele mudou.
“Às vezes eu ficava morrendo de medo de fazer, mas fui mesmo assim, com medo mesmo”, afirmou.
Até agora, a lesão mais séria relatada por ela ocorreu em um mortal de costas. Joaninha apoiou o braço de maneira inadequada, precisou imobilizá-lo por um período e ficou afastada dos patins, mas não sofreu fratura.
Escola antes da pista
A rotina esportiva divide espaço com uma vida comum para uma menina de 13 anos.
A prioridade estabelecida pela família é a escola.
Quando há semana de provas, o treinamento diminui. Em viagens internacionais, colegas enviam conteúdos e matérias para que ela acompanhe as aulas perdidas.
“É sempre a escola primeiro e depois o esporte”, afirmou.
A disciplina também estabelece um contraste com outro hábito comum entre adolescentes.
Questionada se prefere ficar no celular ou patinar, Joaninha não teve dúvida: quando pode escolher, pega o equipamento e vai para a pista.
Nervosismo na semifinal
O título mundial não veio sem pressão.
Joaninha contou que ficou especialmente nervosa durante a semifinal no Paraguai. A tensão contribuiu para erros em algumas manobras.
Na decisão, procurou mudar o comportamento.
A estratégia foi concentrar-se na própria volta, sem observar excessivamente as adversárias.
“Eu fico bem focada só na minha volta”, disse. Durante a apresentação, contou, conversa consigo mesma para controlar a pressão: “Vai acertar agora, fica tranquila.”
O cronômetro também faz parte da estratégia.
Nos 50 segundos disponíveis, ela acompanha o tempo restante para decidir se ainda cabe outra manobra. No Mundial, chegou a acrescentar um movimento ao perceber que havia segundos suficientes antes do encerramento da volta.
A pontuação considera fatores como dificuldade, estilo, consistência, aproveitamento da pista, fluidez e execução sem quedas, segundo a explicação da atleta no podcast.
Concorrentes e amigas
A disputa internacional não impediu a formação de amizades.
Joaninha evita tratar as outras atletas como rivais.
No Mundial, enfrentou competidoras de países como Itália, França, Espanha e Austrália, além de outras brasileiras.
“A gente não é rival. A gente conversa bastante, somos muito amigas”, disse ao mencionar algumas das competidoras brasileiras de sua categoria.
Entre suas referências aparecem nomes do próprio Roller Freestyle, como Ana Júlia da Silva e Fabiola da Silva.
Fora dos patins, ela também acompanha a trajetória da skatista Rayssa Leal, uma das principais referências brasileiras de atletas que chegaram ainda muito jovens ao cenário internacional.
Pelas regras da World Skate, as competições de Roller Freestyle incluem Street, Park e Vert, com categorias específicas por idade e gênero.
O sonho agora é olímpico
Depois de cumprir precocemente a meta de ser campeã mundial, Joaninha já encontrou outro objetivo.
Ela gostaria de disputar uma Olimpíada caso o Roller Freestyle passe futuramente a integrar o programa dos Jogos.
“Imagina, campeã olímpica. Vai ser maravilhoso”, disse.
Por enquanto, o esporte não integra o programa olímpico confirmado, e uma eventual inclusão dependerá das decisões futuras do movimento olímpico.
Joaninha pretende continuar competindo até chegar à categoria adulta.
Antes disso, há desafios mais próximos. Ela já se prepara para novas competições e para o Interclash de 2027, torneio no qual terminou em terceiro lugar neste ano.
A continuidade da carreira também depende de dinheiro.
Embora já tenha patrocinadores, a família afirma que viagens, hospedagens, equipamentos e preparação tornam alto o custo para disputar competições internacionais.
Joaninha diz que ainda precisa ampliar o apoio para manter o calendário esportivo.
Aos 13 anos, a prateleira para guardar troféus e medalhas ainda nem ficou pronta na casa da família.
O problema, segundo ela, já é a quantidade de conquistas acumuladas.
Depois do Paraguai, haverá pelo menos duas peças que precisarão de lugar de destaque: o bronze do Street e o ouro que fez de uma menina que começou a patinar por brincadeira, durante a pandemia, uma campeã mundial.
