Flávio contesta derrota em carta divulgada nos EUA; TSE defende regularidade da eleição

Rodrigo Lima
Senador chegou a Miami após descumprir ordem de entrega de passaportes; documento o apresentou como “presidente eleito” antes de alteração do texto/imagem – Joédson Alves

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou na quarta-feira (28), após chegar a Miami, uma carta em que rejeita a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e se apresenta como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Sem apresentar provas de fraude, o candidato derrotado questionou a legitimidade do segundo turno e agradeceu aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina. Em uma versão posterior, a expressão foi substituída por “líder” do país.

Lula venceu a disputa de domingo (25) com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59.826.041, ou 48,21%. A diferença foi de aproximadamente 4,43 milhões de votos, conforme o resultado divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

A manifestação do senador provocou uma resposta do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. O ministro afirmou que o pleito transcorreu normalmente e que eventuais questionamentos apresentados pelos meios legais serão examinados pela Justiça Eleitoral.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também se distanciou da posição do aliado. Embora tenha manifestado compreensão com a frustração de Flávio, defendeu o respeito ao resultado e a continuidade da atuação política após o encerramento da eleição.

A viagem aos Estados Unidos ocorreu depois de o senador descumprir determinações judiciais relacionadas a seus documentos de viagem. Segundo a Polícia Federal, foram solicitadas ao Supremo Tribunal Federal medidas como apreensão dos passaportes, proibição de deixar o país e restrição de contato com outros investigados, diante de risco de saída do Brasil.

Flávio deixou o território brasileiro por via terrestre, acompanhado da mulher e das duas filhas, e atravessou a fronteira com a Argentina na terça-feira (27). De Puerto Iguazú, seguiu em aeronave particular, com passagem pelo Equador, até Miami.

Segundo informações sobre os registros migratórios, o senador apresentou um passaporte italiano para entrar na Argentina e utilizou o diplomático brasileiro na chegada aos Estados Unidos. Este último já havia sido cancelado pela PF.

A corporação informou que não há registro oficial de saída do parlamentar pelos postos brasileiros de controle migratório. Ressaltou, porém, que restrições a documentos de viagem não tornam alguém automaticamente foragido nem autorizam, por si só, prisão ou vigilância permanente. A PF apura o descumprimento das ordens judiciais.

Na carta, Flávio concentrou parte das acusações na decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que estendeu a votação até as 19h nas seções ainda abertas às 17h. O senador atribuiu à medida um suposto acréscimo de milhões de votos ao adversário.

Os números divulgados pelo TSE não sustentam essa alegação. O tribunal contabilizou 34.393 votos registrados após as 17h em todo o país. A extensão do horário foi determinada depois de ambas as candidaturas relatarem dificuldades no transporte de eleitores.

O documento também passou por mudanças na apresentação. Uma das primeiras versões trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. Posteriormente, o símbolo foi substituído por outro com o nome República Federativa do Brasil.

A saída do país contrariou o posicionamento público adotado pelo senador na segunda-feira (26), quando afirmou que permaneceria no Brasil e entregaria os passaportes. O advogado Tracy Reinaldet, integrante de sua defesa, declarou que a viagem surpreendeu a equipe jurídica, que havia combinado com Flávio o cumprimento da determinação.

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