O virologista e pesquisador Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), passou a integrar em 2025 a lista dos cientistas brasileiros mais influentes em decisões públicas no mundo, segundo levantamento da Agência Bori em parceria com a plataforma internacional Overton, que monitora o uso de evidências científicas em políticas públicas globais.
O pesquisador aparece na 63ª posição entre 107 brasileiros cujos estudos foram citados ao menos 150 vezes em documentos técnicos, relatórios estratégicos e pareceres utilizados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil entre 2019 e novembro de 2025.
Reconhecido internacionalmente por sua atuação em doenças infecciosas, Nogueira também foi homenageado neste ano pela American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH) com o título de Distinguished International Fellow, uma das mais altas distinções concedidas a pesquisadores não norte-americanos na área de medicina tropical e saúde global. A cerimônia ocorrerá durante o congresso anual da entidade, em Toronto, no Canadá.
Do laboratório improvisado à referência em vacinas
A trajetória científica de Nogueira na Famerp começou há cerca de 20 anos, quando passou a estruturar um laboratório de virologia a partir de uma sala vazia, equipada inicialmente apenas com mesa e computador. Desde então, o espaço tornou-se um dos principais centros de pesquisa em arboviroses do interior paulista.
Ao longo das duas últimas décadas, o grupo liderado pelo pesquisador respondeu a perguntas centrais para a saúde pública regional e nacional, como a alta incidência de dengue em São José do Rio Preto, a circulação simultânea de diferentes vírus, a chegada da zika à região e os mecanismos de transmissão por mosquitos.
Esses estudos serviram de base para políticas públicas, estratégias de vigilância epidemiológica e, sobretudo, para o desenvolvimento da vacina contra a dengue, produzida pelo Instituto Butantan, com participação direta do grupo de Rio Preto. Os trabalhos se estenderam por quase dez anos.
“É uma forma de devolver à população aquilo que ela financia. A Famerp é uma instituição pública, e nosso compromisso é transformar pesquisa em benefício direto para a sociedade”, afirmou o pesquisador em entrevista.
Impacto na formulação de políticas públicas
Segundo o relatório da Agência Bori e da Overton, os estudos conduzidos por Nogueira e sua equipe influenciaram decisões estratégicas relacionadas a surtos de dengue, zika, chikungunya e Covid-19, além de orientações do Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Além da atuação no desenvolvimento de vacinas, o grupo atualmente conduz pesquisas sobre o microbioma dos mosquitos, para entender como bactérias e vírus presentes nesses vetores afetam a transmissão das arboviroses. Os trabalhos são financiados por agências de fomento, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Outras frentes investigam por que alguns vírus surgem e desaparecem rapidamente, enquanto outros permanecem circulando por mais de uma década nas cidades.
Formação de novos pesquisadores
Além da produção científica, o laboratório se consolidou como polo de formação de recursos humanos. Jovens pesquisadores de diferentes estados brasileiros e também do exterior realizam estágios e pós-graduações no local. Segundo Nogueira, esse é um dos eixos centrais do trabalho.
“O reconhecimento é coletivo. Hoje sou muito mais gestor do que pesquisador de bancada. Quem produz as novas ideias são esses jovens”, disse.
Apesar do prestígio, ele afirmou que a pesquisa científica no Brasil ainda convive com instabilidade financeira, baixos salários e interferências políticas. Em contrapartida, destaca que trabalhar com jovens mantém o ambiente científico em constante renovação.
Reconhecimento institucional
Em setembro, o pesquisador também foi citado em levantamento da Universidade de Stanford (EUA) entre os cientistas mais influentes do mundo. Para a direção da Famerp, as conquistas refletem a consolidação da instituição como centro estratégico de pesquisa.
“A ciência produzida aqui tem impacto direto na qualidade de vida da população. O reconhecimento internacional reforça esse papel”, afirmou o diretor-geral da Famerp, Helencar Ignacio, em nota.
Atualmente, o grupo também participa de estudos sobre vacinas contra chikungunya, gripe e novos ensaios envolvendo dengue previstos para 2026.
